Estavam lá os três numa mesa de bar em meio a confluência de ruas que beiravam uma grande praça em Salta, coisa bem comum nas cidades argentinas: praças exuberantes muito bem usadas. Já havia na tarde anterior, introduzido o assunto da coca na familia, e a carregava há mais de um mês no bolso da jaqueta, sempre ao alcance dos dedos. A primeira vista a atitude foi um pouco depreciada devido a um préconceito pra lá de aceitável, mas felizmente desnecessário.
A situação aconteceu como consequência de em um ato bem típico do norte: os vendedores de coca que se espalhavam com aglomerados de saquinhos verde-bandeira, beirando mesas e oferecendo a folha. Eis então que finalmente chega o senhor abarrotado de prendas, se aproxima da mesa que se agita de um certo desconcerto pela situação, todos se olham e em meio a copos de cerveja e o espanto pela ousadia do homem, meu pai lança a derradeira: " Não, não, de maneira alguma. Vai saber a procedência!"
Sempre recordo dessa situação em meio a risos, porque no final das contas, com exceção de Denise, a coca foi para lá de utilizada por papi e mami em infinidades de chás, mascadas, mordidas e por fim acabou os acompanhando até o armário da cozinha no Brasil.
Quando eles aceitaram a primeira "dose" estavamos a caminho de Cachi, cidade no topo das montanhas na região de Salta, que acredito estar a mais de 4.000m. Assim que começamos a subida, busquei no bolso um punhado para logo começar a "mascar", obedecendo um trejeito quase ritualistico. Ofereci, e em resposta recebi olhares duvidosos.
Logo que a altitude apertou os ânimos começaram a mudar, e eu já deixava fluir a ladainha sobre como a coca é boa para a circulação, que era um costume Inca e blá, blá, blá. Te garanto por experiência de vida que para chamar atenção desse povo "historiador" basta encaixar o tema no tempo exaltando as suas importâncias aos valores culturais, falar um pouco de "manuseio ritualistico" e "mesclas civilizatórias envolvidas" que eles caem que nem "patinho", é batata!!
A minha mãe foi a primeira a se deixar levar pelos encantos da coca, e sem que oferecesse mais uma vez, agarrou um punhado e foi enfiando as folhas uma a uma na boca. Acabou por levar tão a sério o tal do "mascar coca", que após 10 minutos, me olhou feliz com os dentes verdes e soltou: "que maravilha!". Meu pai também foi na onda, um pouco mais timido talvez, mas me jurou que em alguns minutos já podia sentir o ar passando pelos pulmões com mais facilidade.
Já fazia tempo que conhecia a tal da folha de coca, pra te falar bem a verdade, já tinha até mascado há muito tempo atrás em Sampa. Comprei meu primeiro saquinho em Cafayate. O dia tinha sido pesado, 60km de bicicleta a mais de 2.000m de altura, meu corpo estava quebrado e eu ainda tinha que fazer o jantar. Entrei no açougue de costume e pedi a carne de costume, cheguei no caixa, que não passava de um pequeno balcão de madeira, e meus olhos pousaram em uma coleção de pequenos sacos verdes cheios de folhas, que mais pareciam folhas de “louro”. Incitada pela curiosidade, confirmei o que já estava desconfiada, eram 3$ cada, levei dois.
Logo que sai, abri um dos sacos e enfiei meia dúzia de folhas na boca, e claro, como não sabia o que raios estava fazendo, me pus a literalmente mascar o punhado verde. À medida que as folhas iam se desfazendo, ia deixando de sentir minha garganta e uma disposição estranha ia despertando meu corpo, estava pronta para fazer meu jantar e, logo após, sair para dançar. Cheguei ao hostel e estava lotado, um mar de gringas loiras se agitavam no balcão, passei, estiquei o braço com o saquinho e soltei a fatídica palavra: “coca"?. Uma dúzia de olhos me miraram horrorizados, um sorriso maldoso me brotou nos lábios, segui até a cozinha.
A coca definitivamente gera uma má impressão, mas venho aqui para dizer que não é bem por ai. Existe uma grande diferença entre a cocaina e a coca, e a folha de coca não só é liberada, como você pode levar aonde queira, mascar aonde queira e usar o quanto queira. E te falar que tem momentos que é necessário, não só cultivo esse costume em minha casa, como tenho um belo saco cheio de folhas para qualquer emergência, além de muitos saquinhos de chá.
O que a coca faz?
Basicamente ela ativa o corpo melhorando a circulação e com isso a oxigenação, além de ser boa para digestão, dor de cabeça e para segurar jejuns por mais tempo. O que passa é que quando estamos a mais de 2.000m de altitude, coisa comum nessa região do norte da Argentina, Bolivia, Chile e Peru começa a faltar oxigênio, em resposta a isso, o nosso corpo desacelera e a circulação ganha menos impulso, falta ar, dói a cabeça e depedendo dos casos se a coca não funciona você tem que voltar a altitude habitual devido a riscos de morte. Quando "coqueamos" recuperamos essa energia que falta, enganamos o corpo na verdade, e terminamos acostumando a respirar com menos oxigênio. Eu fui salva por ela algumas vezes, na verdade meu percursso rumo ao norte foi lento, então acostumei aos poucos com a altitude que crescia a cada parada, mas senti o peito pesado e muitas vezes uma dor de cabeça matadora que só era acalmada com repouso e um forte chá de coca.
Para “coquear” é muito simples. Primeiro existe um padrão de qualidade, como tudo na vida, mas de preferência é melhor pegar a folha mais fresca, que não esteja muito quebradiça. Para preservar por mais tempo, fecha-se bem o saquinho e coloca-se um pedacinho de casca de algo cítrico, como limão ou laranja. Pegamos então um punhado, coisa como umas dez folhas, e uma a uma vai se pondo na boca. Convém dar uma molhada com a saliva e talvez dar uma leve dentada para assim ir acomodando com a lingua as folhas no canto da boca, entre os dentes do fundo e a bochecha. "Mascar coca" ou "coquear" é deixar esse punhado de coca parado ai, soltando seus componentes, e isso se mantém por todo o dia, desde que de tempos em tempos você dê uma garibada na “bola de coca”, colocando mais folhas.
Aonde encontrar?
Ela é facilmente comprada na região do norte da Argentina, por toda a Bolivia e Perú, e creio que em algumas regiões do Chile. Mas acredito que o principal consumidor e difusor da coca é a Bolivia, principalmente devido a longa campanha de Evo Morales em mudar a sua idéia, muito poluída pela cocaina. Quem já viajou ou vai viajar por essas regiões, vai se acostumar a ver o constante manuseio da folha, mulheres e homens com as buchechas enormes devido a suas "bolas de coca". E espero que comprem os seus saquinhos e experimentem as possibilidade de uso para essa folha como chás, sopas, e o próprio "mascar".
Bon provecho!!






