quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

O dia que viciei meus pais em coca



Estavam lá os três numa mesa de bar em meio a confluência de ruas que beiravam uma grande praça em Salta, coisa bem comum nas cidades argentinas: praças exuberantes muito bem usadas. Já havia na tarde anterior, introduzido o assunto da coca na familia, e a carregava há mais de um mês no bolso da jaqueta, sempre ao alcance dos dedos. A primeira vista a atitude foi um pouco depreciada devido a um préconceito pra lá de aceitável, mas felizmente desnecessário.

A situação aconteceu como consequência de em um ato bem típico do norte: os vendedores de coca que se espalhavam com aglomerados de saquinhos verde-bandeira, beirando mesas e oferecendo a folha. Eis então que finalmente chega o senhor abarrotado de prendas, se aproxima da mesa que se agita de um certo desconcerto pela situação, todos se olham e em meio a copos de cerveja e o espanto pela ousadia do homem, meu pai lança a derradeira: " Não, não, de maneira alguma. Vai saber a procedência!"

Sempre recordo dessa situação em meio a risos, porque no final das contas, com exceção de Denise, a coca foi para lá de utilizada por papi e mami em infinidades de chás, mascadas, mordidas e por fim acabou os acompanhando até o armário da cozinha no Brasil.

Quando eles aceitaram a primeira "dose" estavamos a caminho de Cachi, cidade no topo das montanhas na região de Salta, que acredito estar a mais de 4.000m. Assim que começamos a subida, busquei no bolso um punhado para logo começar a "mascar", obedecendo um trejeito quase ritualistico. Ofereci, e em resposta recebi olhares duvidosos.

Logo que a altitude apertou os ânimos começaram a mudar, e eu já deixava fluir a ladainha sobre como a coca é boa para a circulação, que era um costume Inca e blá, blá, blá. Te garanto por experiência de vida que para chamar atenção desse povo "historiador" basta encaixar o tema no tempo exaltando as suas importâncias aos valores culturais, falar um pouco de "manuseio ritualistico" e "mesclas civilizatórias envolvidas" que eles caem que nem "patinho", é batata!!

A minha mãe foi a primeira a se deixar levar pelos encantos da coca, e sem que oferecesse mais uma vez, agarrou um punhado e foi enfiando as folhas uma a uma na boca. Acabou por levar tão a sério o tal do "mascar coca", que após 10 minutos, me olhou feliz com os dentes verdes e soltou: "que maravilha!". Meu pai também foi na onda, um pouco mais timido talvez, mas me jurou que em alguns minutos já podia sentir o ar passando pelos pulmões com mais facilidade.

Já fazia tempo que conhecia a tal da folha de coca, pra te falar bem a verdade, já tinha até mascado há muito tempo atrás em Sampa. Comprei meu primeiro saquinho em Cafayate. O dia tinha sido pesado, 60km de bicicleta a mais de 2.000m de altura, meu corpo estava quebrado e eu ainda tinha que fazer o jantar. Entrei no açougue de costume e pedi a carne de costume, cheguei no caixa, que não passava de um pequeno balcão de madeira, e meus olhos pousaram em uma coleção de pequenos sacos verdes cheios de folhas, que mais pareciam folhas de “louro”. Incitada pela curiosidade, confirmei o que já estava desconfiada, eram 3$ cada, levei dois.
Logo que sai, abri um dos sacos e enfiei meia dúzia de folhas na boca, e claro, como não sabia o que raios estava fazendo, me pus a literalmente mascar o punhado verde. À medida que as folhas iam se desfazendo, ia deixando de sentir minha garganta e uma disposição estranha ia despertando meu corpo, estava pronta para fazer meu jantar e, logo após, sair para dançar. Cheguei ao hostel e estava lotado, um mar de gringas loiras se agitavam no balcão, passei, estiquei o braço com o saquinho e soltei a fatídica palavra: “coca"?. Uma dúzia de olhos me miraram horrorizados, um sorriso maldoso me brotou nos lábios, segui até a cozinha.

A coca definitivamente gera uma má impressão, mas venho aqui para dizer que não é bem por ai. Existe uma grande diferença entre a cocaina e a coca, e a folha de coca não só é liberada, como você pode levar aonde queira, mascar aonde queira e usar o quanto queira. E te falar que tem momentos que é necessário, não só cultivo esse costume em minha casa, como tenho um belo saco cheio de folhas para qualquer emergência, além de muitos saquinhos de chá.

O que a coca faz?

Basicamente ela ativa o corpo melhorando a circulação e com isso a oxigenação, além de ser boa para digestão, dor de cabeça e para segurar jejuns por mais tempo. O que passa é que quando estamos a mais de 2.000m de altitude, coisa comum nessa região do norte da Argentina, Bolivia, Chile e Peru começa a faltar oxigênio, em resposta a isso, o nosso corpo desacelera e a circulação ganha menos impulso, falta ar, dói a cabeça e depedendo dos casos se a coca não funciona você tem que voltar a altitude habitual devido a riscos de morte. Quando "coqueamos" recuperamos essa energia que falta, enganamos o corpo na verdade, e terminamos acostumando a respirar com menos oxigênio. Eu fui salva por ela algumas vezes, na verdade meu percursso rumo ao norte foi lento, então acostumei aos poucos com a altitude que crescia a cada parada, mas senti o peito pesado e muitas vezes uma dor de cabeça matadora que só era acalmada com repouso e um forte chá de coca.

Para “coquear” é muito simples. Primeiro existe um padrão de qualidade, como tudo na vida, mas de preferência é melhor pegar a folha mais fresca, que não esteja muito quebradiça. Para preservar por mais tempo, fecha-se bem o saquinho e coloca-se um pedacinho de casca de algo cítrico, como limão ou laranja. Pegamos então um punhado, coisa como umas dez folhas, e uma a uma vai se pondo na boca. Convém dar uma molhada com a saliva e talvez dar uma leve dentada para assim ir acomodando com a lingua as folhas no canto da boca, entre os dentes do fundo e a bochecha. "Mascar coca" ou "coquear" é deixar esse punhado de coca parado ai, soltando seus componentes, e isso se mantém por todo o dia, desde que de tempos em tempos você dê uma garibada na “bola de coca”, colocando mais folhas.

Aonde encontrar?

Ela é facilmente comprada na região do norte da Argentina, por toda a Bolivia e Perú, e creio que em algumas regiões do Chile. Mas acredito que o principal consumidor e difusor da coca é a Bolivia, principalmente devido a longa campanha de Evo Morales em mudar a sua idéia, muito poluída pela cocaina. Quem já viajou ou vai viajar por essas regiões, vai se acostumar a ver o constante manuseio da folha, mulheres e homens com as buchechas enormes devido a suas "bolas de coca". E espero que comprem os seus saquinhos e experimentem as possibilidade de uso para essa folha como chás, sopas, e o próprio "mascar".


Bon provecho!!



quarta-feira, 22 de outubro de 2008

27 de julho de 2008. Yavi, Jujuy.


Yavi, por Mirza Pellicciotta, minha mãe.

O tempo está parado neste vilarejo localizado há 14 km de La Quiaca, no extremo norte da Argentina. Algumas dezenas de casas de adobe sem fechadura nas portas dão forma urbana a uma pequena colina que, ainda hoje, guarda em sua porção mais baixa, uma igrejinha do século XVII (toda forrada de ouro e prata de Potosí) e uma “casona” que, por mais de 200 anos, administrou as riquezas do “Marquesado de Tojo”. Javy perdeu-se no tempo e no espaço. Pelas ruas calçadas de pedra, vez por outra, cruzamos com uma criança de bicicleta, com algum carro a caminho de La Quiaca, ou ainda, com uma senhora acompanhada pela filha que, a caminho de casa, transporta em tecidos enfaixados pelo corpo, alguma preciosidade doméstica.

De fato, testemunhos de um mundo colonial ibérico permanecem presentes nos traçados de terra que, vez por outra, ostentam uma placa de seven-up ou dão acesso, por uma portinha, ao mundo virtual da internet. Mas, mais do que isso, Yavi guarda nas proximidades da Laguna Colorado, paredões de pedra carregados de petroglifos através dos quais, pássaros, llamas, homens e símbolos abstratos registram a presença de culturas que, milhares de anos atrás, já desfrutavam desta paisagem.Mas o frio toma conta de tudo. Do pátio interno das casas chegamos ao sol e nas ruas calçadas, só a força para subir as ladeiras enche nossos corpos de calor; de qualquer forma, na hora de comer, junto aos deliciosos estofados de cordero, pizzas e spagettis nos permitem reencontrar velhos e novos sabores de um território maravilhoso, isolado e singular por sua temporalidade.

Esta viagem – para mim, há poucos dias em curso - enche de orgulho um coração de mãe, afinal, é a Marilia quem a está guiando e me fazendo descobrir este mundo mágico e profundo

sábado, 16 de agosto de 2008

relógio


Hoje quando caminhava de volta a Cafayate, após um trekking delicioso, fui atacada por uma euforia inacreditável, me pus a saltar e rir pela estrada poeirenta e infértil. Percebi que minha viagem esta a dois dias de terminar e tudo, tudo saiu mais que maravilhoso! Somo mais amigos que dedos em minhas mãos, e te falar que alguns desses vão viver em meu coração, e provavelmente, em minha vida por tempo indeterminado. Estou cheia e repleta a ponto de transbordar, e o olhar, esse anda ainda mais profundo.

O resultado dessa jornada me fez somar tantos pontos que no final das contas o que pensei é que poderia de verdade viver na estrada; desde que de tempos em tempos possa estar com família e amigos, viajaria por todos meus dias, bebendo dessa fonte inesgotável que é ter casas e portos em inimagináveis lugares.

Há pouco tempo conheci um senhor encantador, sentei ao seu lado em um almoço coletivo cedido pela população de San Isidro, pequeno pueblo cravado em meio a uma montanha, nos limiares do norte da Argentina. Nos miramos, e logo nos reconhecemos como em um espelho, e como em um laço, nos pusemos a conversar por horas a fio. Seu rosto já colecionava rugas de uma vida vivida e era como eu, um viciado nos caminhos. O desprendimento se mostrava na abertura à amizade, acompanhada de uma alegria ímpar que explodia a cada instante, em simpatia. Ernesto deve ter mais de 60 e por toda sua vida viajou, conhece o mundo e recém chegava da China.

Incitada pela curiosidade, e por uma dúvida que esta longe de ser um clichê, abri meus poros e ouvidos para a resposta a uma pergunta que a muitos é comum, mas para pessoas como ele, e talvez, como eu, é o que ponteiam os tão ansiados caminhos. Cortei o assunto que já se estendia há horas como uma navalha, olhei nos seus olhos e lancei: Você tem filhos e família? Ele me olhou fundo, e sem perder o sorriso disse que “não”. E pensa em ter? retruquei. E novamente me sorriu e lançou o derradeiro “não”.

Isso a vocês pode soar como uma brincadeira, ou, como uma pergunta um pouco precoce aos meus verdes anos. O fato é que eu estou muito longe de pensar em ter uma família, um marido e muito menos filhos, e isso definitivamente, me preocupa!

Será possível mesclar essas coisas todas em algo que seja verdadeiro? Será possível ser um viajante e ter raízes profundas?

Ta bom, riam de mim, eu sei que já começaram...

Diferente do homem, a mulher tem alguns desejos que são contados pelo tempo e tudo a volta martela essa ideia. Se eu tenho vontade de ter filhos? Pô, e como! E meu corpo já faz questão de mostrar que anda se preparando. Mas, convenhamos, mau sustento minha dispensa, e um filhote agora ia por meu mundo de cabeça para baixo!

Bem, enquanto esse dia não vem, vou vivendo. Caminhando livre em estradas bem longas e intermináveis. E se um dia o tempo apertar, a gente como sempre, há de encontrar um jeito! Só sei que quero do Ernesto somente a equivalência da experiência de vida, e é claro, a lista quilométrica de namorados!

Alguém pode me dar uma luz para acalmar meu jovem coração, ou, me dar um belo puxão de orelha?!

Mamãe já esta me cobrando de netinhos. Vê se pode?!

terça-feira, 22 de julho de 2008

Mariano

A primeira vista Mariano lembrou meu pai adolescente e ele ficaria puto ao saber disso, afinal, meu pai era bem bonito em sua juventude (e ainda é) e Mariano, bem, não posso dizer a mesma coisa. Eu na verdade não sei ao certo o que penso desse rapaz, só sei que ele me marcou de alguma forma, e me marcou de uma forma um pouco negativa. Tudo começou na minha tpm, é homens, eu tenho! Mas, minha tpm é algo que me torna um pouco mais sensível, fico propícia aos estímulos externos e se estou em um ambiente bom, tudo passa bem. Mas, infelizmente não foi o caso do pobre Mariano.

Ele tinha a cara longa e nariz arqueado, mais acima, um par de grandes e claros olhos azuis. Seu queixo se projetava para frente deixando ainda mais funda as maçãs do rosto, eram como covas, e lembravam o rosto de uma velha de oitenta anos. Não gostava de olhar quando ele sugava o mate, seu rosto afundava em um movimento grotesco, coisa que nem quero lembrar, pois como disse, estava sensível.

Desde muito jovem, coisa que ainda é um fato, eu sempre tive um ímã para seres estranhos, talvez por ser também uma pessoa ligeiramente diferente, e querer agregar todos, independente do que sejam, a minha volta. Eu só sei que seres esquisitos gostam de mim, e na maioria das vezes se apaixonam, e eu como sempre: percebo, olho ao redor e fujo! E esse foi o caso do pobre Mariano.

Tenho um certo problema com pessoas que falam demais, eu na verdade falo muito, mas cultivo diariamente horas de silêncio, porque afinal sou uma pisciana incorrigível. Quando assumo a “viajante solitária”, escolho a dedo minhas companhias e te falar que é raro ter bons companheiros, porque, é preciso equilíbrio, amizade, independência e em alguns bons momentos de solidão.

Eis que sem me questionar, o tal do Mariano decidiu que seria meu companheiro de viagem. No primeiro dia tudo se passou bem, recém chegava em Córdoba e estava aberta a novas amizades. Ele era da cidade e havia se formado em história, isso para mim era ótimo, iria conhecer a cidade com mais profundidade.

Em pouco tempo percebi que ele era aquele ser típico que passa mais tempo entre os livros do que vivendo, sabia me dizer tudo sobre todos os lugares que nunca esteve. Tudo tinha uma explicação, tudo tinha um significado e a cada frase que eu fazia ele retrucava: “mas, é claro!”.

Foi ai que começou a minha irritação. Claro, é o caraio!

Certo dia, perdi minha rica paciência que já estava curta devido a tpm e retruquei feroz : “Claro! Claaaro! Che, tudo é tão claro e límpido para você, tô precisando de umas aulas de vivência!”.

Coitado, eu posso ser muito antipática, e isso sim é claro.

O fato é que ele colou em mim, e não tem coisa que mais me deixe louca que seres dependentes e possessivos. Tentei de tudo para me libertar. Todo dia dava rasgadas antipáticas, saia mais cedo, deixava bem claro que estava de mal humor e queria fotografar sozinha. Mas nada, nada adiantava. Na verdade, o meu dia-dia era cercado de certas “coincidências”.Quando eu tinha fome, ele também tinha. Queria dormir e ele também queria. Aposto que se falasse que queria “cagar em público” ele também iria querer.


O fato é que eu fiquei puta, me senti invadida e incomodada!

A gota d’água foi em Alta Gracia.

Eis que queria ir conhecer a casa do “Che”, fui até o terminal me informar e comprar a passagem, voltei ao hostel e lá estava Mariano, sentado no bar em plenas duas da tarde, afogando a tristeza no copo de cerveja. Entrei e fui em sua direção, estava feliz e resolvi ser um pouco mais simpática. Começamos a conversar e eis que a idiota solta a frase “Ah, amanhã vou para Alta Gracia!”.

Bingo!

Seus olhos brilharam, essa era a chance de estar a sós comigo em uma pequena viagem! E como esperado, ele me diz animado “Mira, vos! Que coincidência! Amanhã também vou a Alta Gracia e ficarei por lá uma noite!”.

Ah, comecei a rir e ri com gosto! Olhei fundo em seus olhos e disse: "Jura?!"

Ele quer guerra, então, é o que terás!

Essa noite fui o ser mais simpático do mundo e até paguei a cerveja. Dei por três vezes uma surra na sinuca, coisa que no Brasil, ele teria que passar por baixo da mesa. Acordei com um humor dos deuses e paguei a passagem. Chegamos a Alta Gracia e o dia foi lindo, eu era uma companheira exemplar! Feliz e animada me despedi com um sorriso largo na cara, e até disse a ele que nos víamos no outro dia em Córdoba. Ele sorriu e se foi tranqüilo, estava realizado, é "claro" que eu sentia o mesmo por ele!

Voltei, arrumei a mala, fui ao terminal e comprei a minha alforria. Pela manhã, mal o dia amanheceu, me fui sem deixar rastro. Um dia depois lá estava em minha caixa de entrada um e-mail desesperado, escrito em meio a copos de cerveja:

“Onde eu estava, como poderia, em sã conciência ter feito algo tão terrível? Ele se morria por mim!”

Ah, deleite!

Levei o mouse até o botão "apagar mensagem", sorri e apertei com um prazer indescritível. Lá se ia Mariano da minha vida, deixando para trás somente a minha releitura sarcástica.

O que seria de meus textos sem um ser assim?! Um brinde a minha maldade, e é claro, a Mariano!

Ah, uma coisa eu aprendi nesses 27 anos: definitivamente não podemos querer tudo, e eu sou um ser para poucos. Tens que ser um louco para me bancar! E esse Mariano, assim como muitos, não chegou nem perto do tipo de loucura que eu costumo apreciar e me deixar levar!

Que venham os guerreiros! Ahu!

sábado, 19 de julho de 2008

TIO DA SUKITA!!!!


AHHH!! Mas num é que encontrei a versão "Quechua" do "tio da sukita" ao vivo e a cores!!!!

E como um "tio" mais que original ele me olhou, sorriu, levantou o copo do liquido alaranjado e disse: a su salud!!!

cheeeers!

hahahahahahah

dale!

segunda parada: San Juan


Domingo, onze horas. Só o sol constante acalenta minha caminhada faminta, procuro algo para comer ou para ver, nada encontro. San Juan é uma cidade de longas e recortadas ruas salpicadas de mil tons de amarelo. Cidade vazia, imóvel.

Cheguei no hostel próximo ao meio dia e tudo soava a silêncio na enorme casa fria e tranqüila, ausente de vida. A grande casa cheia de quartos e espaços vazios. Olhei a minha volta e, sem muita opção, aceitei ficar.

Estava só e assustei quando surgiram as risadas, rasgando bruscamente o silêncio. Subi as escadas, curiosa. Abro a porta, e lá estavam os dois rindo aos prantos por um motivo qualquer, ecoando um calor único e enchendo tudo de vida. Era assim quando chegavam e era assim quando estavam. Queridos e inesquecíveis amigos: Guilhermo e Werm.

Ah, eu confesso! Algo que definitivamente me conquista e arrebata o coração é o simples e desprendido riso. Rir, esse é o principio de se viver bem! E foi assim que, sem ter como fugir, fui fisgada por esses dois. Essa pequena cidade me ganhou, e por ali fiquei até enjoar do doce.

Posso dizer que San Juan é um lugar especial e o que guardo na memória não é nada frio ou solitário. As lembranças transbordam em crises de riso intermináveis em meio a muitas taças de vinho, longas e inteligentes conversas na cozinha e músicas argentinas bregas tocando na rádio. Foi ali que comecei a beber do calor diferente que todo "povo do norte” têm e acabei por mudar um pouco a minha opnião sobre os argentinos, agora ando meio que conquistada, e desejo a presença desse povo que me cerca.


Viajar sozinha e “morar” a cada hora em um novo hostel é estar passível ao próximo click de uma bem armada roleta-russa. Nunca sabemos o que esperar, e definitivamente a “primeira impressões não é a que fica”. A questão é: após um tempo de viagem precisamos e queremos nos sentir em “casa”, ou pelo menos ser parte de algo não tão nômade, é com esse espírito que são criados os “micro-cosmos” tão especiais e desejados que adornam esses freqüentados espaços.

São dezenas de distintos companheiros de dia-dia e presentes amigos, infinidade de costumes, dialetos e diferentes formas de intimidade. O que acontece é que aos poucos começamos a reconhecer o que nos rodeia, o país de origem passa a ser legível e se mostra na personalidade e claro, na acessibilidade.

Passamos então a ter preferências e nos alegramos muito quando encontramos certas nacionalidades. Para mim são israelenses, portugueses, italianos, australianos e argentinos que ganham o troféu, devido a serem em geral ótimas companhias, amáveis e divertidos. Franceses e americanos são simpáticos. Alemães, holandeses, ingleses podem ser um pouco grosseiros e demasiadamente frios. Ah, e isso não é novidade, certo?

A mim, logo perguntam se sou israelense, francesa ou argentina. Brasileira? Jamais! Nem mesmo em meu país sou reconhecida e isso é fato!

Mas minha “brasilidade” é algo que não tarda a se mostrar, basta eu começa a rir e todos dizem: “ah, é verdade”. Creio que mostramos nossa origem verde-amarela na constância do bom humor, na liberdade de olhar nos olhos e no toque. Se isso é uma coisa minha ou não, uma coisa é fato: sempre somos muito bem recebidos, desejados e convidados para tudo! E isso é bom, muito bom!

Dale, Brasil! Para alguma coisa definitivamente você serve!

Em San Juan passei por duas experiências que valem a pena contar, mas como disse acima, o que ganhei dessa cidade foi conforto, coisa que nos marca tanto quanto as intermináveis aventuras.

Aventura 3 : Difunta Corrêa.

De tempos em tempos me rendo ao “centro de informações turísticas”, é quase que um desafio sair monetariamente ileso, ou, com uma soma de coisas interessantes para fazer. Cheguei sedenta e sai com ainda mais sede. É, posso dizer que sou um “osso pra lá de duro de roer” e que a simpática garota perdeu um bom tempo comigo. No final das contas o pensamento foi : “Fudeu! Vou ter que dar nó em pingo d’água”!

A questão era que eu não tinha dinheiro, e tudo que havia para fazer não custava pouco, e sim muito! Ela tentou me dobrar, tentou com apetite, mas não conseguiu. Transporte comum? Nada. Companhia para dividir custos? Nenhuma.

Difunta Corrêa, como poderia descrever, é uma vila ou um pueblo? Enfim, não sei. É uma aglomeração que se formou em um lugar a principio sagrado, e aos olhos de quem determina o que é “um lugar turístico interessante”, esse definitivamente não era uma boa opção. Bem, era isso então. A moça me olhou decepcionada e o que poderia fazer? Tinha que apelar e pagar, com o pouco que tinha, para ver. Sou cabeça-dura e se essa era a única coisa que tinha acesso, lá ia eu. Ela no final colaborou, fez o favor de me mostrar o guichê.

Diz a lenda que a tal da Difunta Corrêa vivia em La Rioja e que era uma jovem muito bonita, casada e apaixonada por seu jovem marido. Tudo ia bem, até que um “homem mal e influente” acabou por se enamorar da linda moça e a queria a qualquer custo. Qual foi então a solução dentro do pensamento limitado masculino? Para ser correspondido teria que sumir com o amado da donzela.

Bingo!

Eis então que o coitado é enviado para morrer nos conflitos da guerra em San Juan. Desesperada, a Difunta pega então seu pequeno rebento, calça a chinela e como não havia coletivo, decide ir a pé em busca de seu querido. Depois de caminhar e caminhar por dias sem nem um isotônico, eis que seu corpo não suporta o terrível calor árido. Então, quando já estava quase lá acaba por morrer a pobre, de sede. O milagre se dá na sobrevivência do pequeno, que ao sorver o leite materno se mantém vivo até ser encontrado por moradores da região.

Em minha descrição faço uma terrível brincadeira, mas, o assunto é para lá de sério. O lugar virou um famoso “delivery de milagres”, e posso dizer que é emocionante! Imaginem que já cheguei e me deparei com uma senhora que subia uma longa escadaria de joelhos. Olhei, sorri e pensei: “oba, acho que hoje vai dar samba”! Alguém deveria prender os fotógrafos, confesso que adoramos algo sádico, doloroso e é claro, expressivo.

Tinha apenas duas horas para fotografar e lá fui eu entrando, furando a fila da santa e enfiando a lente em todos os lugares possíveis e imaginários. Definitivamente estava faminta e não tinha tempo para ser “light”, a santa que me perdoe!

Imaginem um lugar coalhado de agradecimentos, nunca vi tanta placa de carro na vida. Enquanto no Brasil o povo pede ajuda para enfermidades, aqui na Argentina o top10 vai de carro, vitória do “Boca”, casório e casa nova! Quem sou eu para julgar, certo? Se a saúde tivesse sobrando eu bem que pedia uma moto! Mas, te falar que a tal da Difunta Correa num deixa a desejar, porque os fiéis se amontoavam em filas maiores que de hospital público brasileiro.




Foi um deleite!

Aventura 4 : Las Tumanas e Astica

Quando lembro desse passeio penso: quem sou eu para expressar por palavras a grande emoção que foi essa viagem?! Levando em consideração decidi juntamente com meu editor que deveríamos postar algo mais “real”, para que vocês meus caros leitores, não fiquem limitados à imaginação. Entonces, eis que ponho logo abaixo um videozinho bem dos “safados” e mal filmados para vocês verem a expressão verdadeira em meus olhos!

Bom proveito!


Chá de sumisso!


Eis que volto a todo vapor e mais atrasada do que nunca! A mente anda clara e tudo esta funcionando! Pois é, não morri e nem fui abduzida por algum espírito inca, muito menos me perdi no caminho!

O “pôbrema foi”, ou, o “melhor de tudo” é: estava curtindo umas montanhas bem longe de internet e cidade grande. E como sou um ser bem “maria vai com as outras”, me deixei levar para bem longe daqui!

Ah, e me perdi sim! Me perdi em meio a mais de 3000 mil metros de altitude em animadas e longas caminhadas com direito a muita música, risos, danças ao vento e mate, muito mate!

Bem, depois dessa a única coisa que vocês podem fazer é me perdoar, e pensar: ela estava bem, muito bem! Beleza, se isso não é suficiente então vou apelar para uma tática velha: como agradar os pais e se safar da bronca, depois de sair e voltar de manhã sem ter avisado? Leva o pãozinho que tá tudo resolvido!

Entonces, como vocês não são meus pais e eu não tenho nem um pãozinho virtual, eis que coloco um filminho bem gostoso, na verdade é um presente que resolvi compartilhar. Como fiz uma pessoa feliz, espero poder dar um pouquinho dessa felicidade para vocês também.

Abraço grande e estou de volta!