
Yavi, por Mirza Pellicciotta, minha mãe.

Hoje quando caminhava de volta a Cafayate, após um trekking delicioso, fui atacada por uma euforia inacreditável, me pus a saltar e rir pela estrada poeirenta e infértil. Percebi que minha viagem esta a dois dias de terminar e tudo, tudo saiu mais que maravilhoso! Somo mais amigos que dedos em minhas mãos, e te falar que alguns desses vão viver em meu coração, e provavelmente, em minha vida por tempo indeterminado. Estou cheia e repleta a ponto de transbordar, e o olhar, esse anda ainda mais profundo.
O resultado dessa jornada me fez somar tantos pontos que no final das contas o que pensei é que poderia de verdade viver na estrada; desde que de tempos em tempos possa estar com família e amigos, viajaria por todos meus dias, bebendo dessa fonte inesgotável que é ter casas e portos em inimagináveis lugares.
Há pouco tempo conheci um senhor encantador, sentei ao seu lado em um almoço coletivo cedido pela população de San Isidro, pequeno pueblo cravado em meio a uma montanha, nos limiares do norte da Argentina. Nos miramos, e logo nos reconhecemos como em um espelho, e como em um laço, nos pusemos a conversar por horas a fio. Seu rosto já colecionava rugas de uma vida vivida e era como eu, um viciado nos caminhos. O desprendimento se mostrava na abertura à amizade, acompanhada de uma alegria ímpar que explodia a cada instante, em simpatia. Ernesto deve ter mais de 60 e por toda sua vida viajou, conhece o mundo e recém chegava da China.
Incitada pela curiosidade, e por uma dúvida que esta longe de ser um clichê, abri meus poros e ouvidos para a resposta a uma pergunta que a muitos é comum, mas para pessoas como ele, e talvez, como eu, é o que ponteiam os tão ansiados caminhos. Cortei o assunto que já se estendia há horas como uma navalha, olhei nos seus olhos e lancei: Você tem filhos e família? Ele me olhou fundo, e sem perder o sorriso disse que “não”. E pensa em ter? retruquei. E novamente me sorriu e lançou o derradeiro “não”.
Isso a vocês pode soar como uma brincadeira, ou, como uma pergunta um pouco precoce aos meus verdes anos. O fato é que eu estou muito longe de pensar em ter uma família, um marido e muito menos filhos, e isso definitivamente, me preocupa!
Será possível mesclar essas coisas todas em algo que seja verdadeiro? Será possível ser um viajante e ter raízes profundas?
Ta bom, riam de mim, eu sei que já começaram...
Diferente do homem, a mulher tem alguns desejos que são contados pelo tempo e tudo a volta martela essa ideia. Se eu tenho vontade de ter filhos? Pô, e como! E meu corpo já faz questão de mostrar que anda se preparando. Mas, convenhamos, mau sustento minha dispensa, e um filhote agora ia por meu mundo de cabeça para baixo!
Bem, enquanto esse dia não vem, vou vivendo. Caminhando livre em estradas bem longas e intermináveis. E se um dia o tempo apertar, a gente como sempre, há de encontrar um jeito! Só sei que quero do Ernesto somente a equivalência da experiência de vida, e é claro, a lista quilométrica de namorados!
Alguém pode me dar uma luz para acalmar meu jovem coração, ou, me dar um belo puxão de orelha?!
Mamãe já esta me cobrando de netinhos. Vê se pode?!
A primeira vista Mariano lembrou meu pai adolescente e ele ficaria puto ao saber disso, afinal, meu pai era bem bonito em sua juventude (e ainda é) e Mariano, bem, não posso dizer a mesma coisa. Eu na verdade não sei ao certo o que penso desse rapaz, só sei que ele me marcou de alguma forma, e me marcou de uma forma um pouco negativa. Tudo começou na minha tpm, é homens, eu tenho! Mas, minha tpm é algo que me torna um pouco mais sensível, fico propícia aos estímulos externos e se estou em um ambiente bom, tudo passa bem. Mas, infelizmente não foi o caso do pobre Mariano.
Ele tinha a cara longa e nariz arqueado, mais acima, um par de grandes e claros olhos azuis. Seu queixo se projetava para frente deixando ainda mais funda as maçãs do rosto, eram como covas, e lembravam o rosto de uma velha de oitenta anos. Não gostava de olhar quando ele sugava o mate, seu rosto afundava em um movimento grotesco, coisa que nem quero lembrar, pois como disse, estava sensível.
Desde muito jovem, coisa que ainda é um fato, eu sempre tive um ímã para seres estranhos, talvez por ser também uma pessoa ligeiramente diferente, e querer agregar todos, independente do que sejam, a minha volta. Eu só sei que seres esquisitos gostam de mim, e na maioria das vezes se apaixonam, e eu como sempre: percebo, olho ao redor e fujo! E esse foi o caso do pobre Mariano.
Tenho um certo problema com pessoas que falam demais, eu na verdade falo muito, mas cultivo diariamente horas de silêncio, porque afinal sou uma pisciana incorrigível. Quando assumo a “viajante solitária”, escolho a dedo minhas companhias e te falar que é raro ter bons companheiros, porque, é preciso equilíbrio, amizade, independência e em alguns bons momentos de solidão.
Eis que sem me questionar, o tal do Mariano decidiu que seria meu companheiro de viagem. No primeiro dia tudo se passou bem, recém chegava em Córdoba e estava aberta a novas amizades. Ele era da cidade e havia se formado em história, isso para mim era ótimo, iria conhecer a cidade com mais profundidade.
Em pouco tempo percebi que ele era aquele ser típico que passa mais tempo entre os livros do que vivendo, sabia me dizer tudo sobre todos os lugares que nunca esteve. Tudo tinha uma explicação, tudo tinha um significado e a cada frase que eu fazia ele retrucava: “mas, é claro!”.
Foi ai que começou a minha irritação. Claro, é o caraio!
Certo dia, perdi minha rica paciência que já estava curta devido a tpm e retruquei feroz : “Claro! Claaaro! Che, tudo é tão claro e límpido para você, tô precisando de umas aulas de vivência!”.
Coitado, eu posso ser muito antipática, e isso sim é claro.
O fato é que ele colou em mim, e não tem coisa que mais me deixe louca que seres dependentes e possessivos. Tentei de tudo para me libertar. Todo dia dava rasgadas antipáticas, saia mais cedo, deixava bem claro que estava de mal humor e queria fotografar sozinha. Mas nada, nada adiantava. Na verdade, o meu dia-dia era cercado de certas “coincidências”.Quando eu tinha fome, ele também tinha. Queria dormir e ele também queria. Aposto que se falasse que queria “cagar em público” ele também iria querer.
O fato é que eu fiquei puta, me senti invadida e incomodada!
Eis que queria ir conhecer a casa do “Che”, fui até o terminal me informar e comprar a passagem, voltei ao hostel e lá estava Mariano, sentado no bar em plenas duas da tarde, afogando a tristeza no copo de cerveja. Entrei e fui em sua direção, estava feliz e resolvi ser um pouco mais simpática. Começamos a conversar e eis que a idiota solta a frase “Ah, amanhã vou para Alta Gracia!”.
Bingo!
Seus olhos brilharam, essa era a chance de estar a sós comigo em uma pequena viagem! E como esperado, ele me diz animado “Mira, vos! Que coincidência! Amanhã também vou a Alta Gracia e ficarei por lá uma noite!”.
Ah, comecei a rir e ri com gosto! Olhei fundo em seus olhos e disse: "Jura?!"
Ele quer guerra, então, é o que terás!
Essa noite fui o ser mais simpático do mundo e até paguei a cerveja. Dei por três vezes uma surra na sinuca, coisa que no Brasil, ele teria que passar por baixo da mesa. Acordei com um humor dos deuses e paguei a passagem. Chegamos a Alta Gracia e o dia foi lindo, eu era uma companheira exemplar! Feliz e animada me despedi com um sorriso largo na cara, e até disse a ele que nos víamos no outro dia em Córdoba. Ele sorriu e se foi tranqüilo, estava realizado, é "claro" que eu sentia o mesmo por ele!
Voltei, arrumei a mala, fui ao terminal e comprei a minha alforria. Pela manhã, mal o dia amanheceu, me fui sem deixar rastro. Um dia depois lá estava em minha caixa de entrada um e-mail desesperado, escrito em meio a copos de cerveja:
“Onde eu estava, como poderia, em sã conciência ter feito algo tão terrível? Ele se morria por mim!”
Ah, deleite!
Levei o mouse até o botão "apagar mensagem", sorri e apertei com um prazer indescritível. Lá se ia Mariano da minha vida, deixando para trás somente a minha releitura sarcástica.
O que seria de meus textos sem um ser assim?! Um brinde a minha maldade, e é claro, a Mariano!
Ah, uma coisa eu aprendi nesses 27 anos: definitivamente não podemos querer tudo, e eu sou um ser para poucos. Tens que ser um louco para me bancar! E esse Mariano, assim como muitos, não chegou nem perto do tipo de loucura que eu costumo apreciar e me deixar levar!
Que venham os guerreiros! Ahu!

Domingo, onze horas. Só o sol constante acalenta minha caminhada faminta, procuro algo para comer ou para ver, nada encontro. San Juan é uma cidade de longas e recortadas ruas salpicadas de mil tons de amarelo. Cidade vazia, imóvel.
Cheguei no hostel próximo ao meio dia e tudo soava a silêncio na enorme casa fria e tranqüila, ausente de vida. A grande casa cheia de quartos e espaços vazios. Olhei a minha volta e, sem muita opção, aceitei ficar.
Estava só e assustei quando surgiram as risadas, rasgando bruscamente o silêncio. Subi as escadas, curiosa. Abro a porta, e lá estavam os dois rindo aos prantos por um motivo qualquer, ecoando um calor único e enchendo tudo de vida. Era assim quando chegavam e era assim quando estavam. Queridos e inesquecíveis amigos: Guilhermo e Werm.
Ah, eu confesso! Algo que definitivamente me conquista e arrebata o coração é o simples e desprendido riso. Rir, esse é o principio de se viver bem! E foi assim que, sem ter como fugir, fui fisgada por esses dois. Essa pequena cidade me ganhou, e por ali fiquei até enjoar do doce.
Viajar sozinha e “morar” a cada hora em um novo hostel é estar passível ao próximo click de uma bem armada roleta-russa. Nunca sabemos o que esperar, e definitivamente a “primeira impressões não é a que fica”. A questão é: após um tempo de viagem precisamos e queremos nos sentir em “casa”, ou pelo menos ser parte de algo não tão nômade, é com esse espírito que são criados os “micro-cosmos” tão especiais e desejados que adornam esses freqüentados espaços.
São dezenas de distintos companheiros de dia-dia e presentes amigos, infinidade de costumes, dialetos e diferentes formas de intimidade. O que acontece é que aos poucos começamos a reconhecer o que nos rodeia, o país de origem passa a ser legível e se mostra na personalidade e claro, na acessibilidade.
Passamos então a ter preferências e nos alegramos muito quando encontramos certas nacionalidades. Para mim são israelenses, portugueses, italianos, australianos e argentinos que ganham o troféu, devido a serem em geral ótimas companhias, amáveis e divertidos. Franceses e americanos são simpáticos. Alemães, holandeses, ingleses podem ser um pouco grosseiros e demasiadamente frios. Ah, e isso não é novidade, certo?
A mim, logo perguntam se sou israelense, francesa ou argentina. Brasileira? Jamais! Nem mesmo em meu país sou reconhecida e isso é fato!
Mas minha “brasilidade” é algo que não tarda a se mostrar, basta eu começa a rir e todos dizem: “ah, é verdade”. Creio que mostramos nossa origem verde-amarela na constância do bom humor, na liberdade de olhar nos olhos e no toque. Se isso é uma coisa minha ou não, uma coisa é fato: sempre somos muito bem recebidos, desejados e convidados para tudo! E isso é bom, muito bom!
Dale, Brasil! Para alguma coisa definitivamente você serve!
Em San Juan passei por duas experiências que valem a pena contar, mas como disse acima, o que ganhei dessa cidade foi conforto, coisa que nos marca tanto quanto as intermináveis aventuras.
Aventura 3 : Difunta Corrêa.
De tempos em tempos me rendo ao “centro de informações turísticas”, é quase que um desafio sair monetariamente ileso, ou, com uma soma de coisas interessantes para fazer. Cheguei sedenta e sai com ainda mais sede. É, posso dizer que sou um “osso pra lá de duro de roer” e que a simpática garota perdeu um bom tempo comigo. No final das contas o pensamento foi : “Fudeu! Vou ter que dar nó em pingo d’água”!
A questão era que eu não tinha dinheiro, e tudo que havia para fazer não custava pouco, e sim muito! Ela tentou me dobrar, tentou com apetite, mas não conseguiu. Transporte comum? Nada. Companhia para dividir custos? Nenhuma.
Difunta Corrêa, como poderia descrever, é uma vila ou um pueblo? Enfim, não sei. É uma aglomeração que se formou em um lugar a principio sagrado, e aos olhos de quem determina o que é “um lugar turístico interessante”, esse definitivamente não era uma boa opção. Bem, era isso então. A moça me olhou decepcionada e o que poderia fazer? Tinha que apelar e pagar, com o pouco que tinha, para ver. Sou cabeça-dura e se essa era a única coisa que tinha acesso, lá ia eu. Ela no final colaborou, fez o favor de me mostrar o guichê.
Diz a lenda que a tal da Difunta Corrêa vivia em La Rioja e que era uma jovem muito bonita, casada e apaixonada por seu jovem marido. Tudo ia bem, até que um “homem mal e influente” acabou por se enamorar da linda moça e a queria a qualquer custo. Qual foi então a solução dentro do pensamento limitado masculino? Para ser correspondido teria que sumir com o amado da donzela.
Bingo!
Eis então que o coitado é enviado para morrer nos conflitos da guerra em San Juan. Desesperada, a Difunta pega então seu pequeno rebento, calça a chinela e como não havia coletivo, decide ir a pé em busca de seu querido. Depois de caminhar e caminhar por dias sem nem um isotônico, eis que seu corpo não suporta o terrível calor árido. Então, quando já estava quase lá acaba por morrer a pobre, de sede. O milagre se dá na sobrevivência do pequeno, que ao sorver o leite materno se mantém vivo até ser encontrado por moradores da região.
Em minha descrição faço uma terrível brincadeira, mas, o assunto é para lá de sério. O lugar virou um famoso “delivery de milagres”, e posso dizer que é emocionante! Imaginem que já cheguei e me deparei com uma senhora que subia uma longa escadaria de joelhos. Olhei, sorri e pensei: “oba, acho que hoje vai dar samba”! Alguém deveria prender os fotógrafos, confesso que adoramos algo sádico, doloroso e é claro, expressivo.
Tinha apenas duas horas para fotografar e lá fui eu entrando, furando a fila da santa e enfiando a lente em todos os lugares possíveis e imaginários. Definitivamente estava faminta e não tinha tempo para ser “light”, a santa que me perdoe!
Imaginem um lugar coalhado de agradecimentos, nunca vi tanta placa de carro na vida. Enquanto no Brasil o povo pede ajuda para enfermidades, aqui na Argentina o top10 vai de carro, vitória do “Boca”, casório e casa nova! Quem sou eu para julgar, certo? Se a saúde tivesse sobrando eu bem que pedia uma moto! Mas, te falar que a tal da Difunta Correa num deixa a desejar, porque os fiéis se amontoavam em filas maiores que de hospital público brasileiro.
Foi um deleite!
Quando lembro desse passeio penso: quem sou eu para expressar por palavras a grande emoção que foi essa viagem?! Levando em consideração decidi juntamente com meu editor que deveríamos postar algo mais “real”, para que vocês meus caros leitores, não fiquem limitados à imaginação. Entonces, eis que ponho logo abaixo um videozinho bem dos “safados” e mal filmados para vocês verem a expressão verdadeira em meus olhos!
Bom proveito!

Eis que volto a todo vapor e mais atrasada do que nunca! A mente anda clara e tudo esta funcionando! Pois é, não morri e nem fui abduzida por algum espírito inca, muito menos me perdi no caminho!
O “pôbrema foi”, ou, o “melhor de tudo” é: estava curtindo umas montanhas bem longe de internet e cidade grande. E como sou um ser bem “maria vai com as outras”, me deixei levar para bem longe daqui!
Ah, e me perdi sim! Me perdi em meio a mais de 3000 mil metros de altitude em animadas e longas caminhadas com direito a muita música, risos, danças ao vento e mate, muito mate!
Bem, depois dessa a única coisa que vocês podem fazer é me perdoar, e pensar: ela estava bem, muito bem! Beleza, se isso não é suficiente então vou apelar para uma tática velha: como agradar os pais e se safar da bronca, depois de sair e voltar de manhã sem ter avisado? Leva o pãozinho que tá tudo resolvido!
Abraço grande e estou de volta!


Cheguei a rodoviária após uma meditação raivosa e zen. Mais um quarteirão caminhando e iria me tornar uma santa após distribuir noventa por cento dos meus pertences aos fracos e oprimidos da cidade de Mendoza.
A mochila pesava a ponto de doer as costelas.
A cada metro que caminhava, mais intensa e visceral era a ladainha que rosnava para mim e todos a minha volta: “só preciso de duas calças, duas camisetas, duas calcinhas e um agasalho. Só preciso de duas calças...”.
Cheguei em frente ao ônibus quando não mais me suportava. Larguei o defunto no chão, respirei fundo e dei uma boa gorjeta na mão do rapaz que guardava as malas. Tudo doía e não há coisa que mais me irrite que dor desnecessária, uma dor aguda, como quando topamos o dedinho na cadeira da sala. Puta madre, che!
Minha viagem de 4hs foi relaxante, por alguns momentos até pensei que meu bom humor poderia voltar, mas a lembrança da mala definitivamente me perturbava. Agradeço por estar só, tem horas que posso ser um cão raivoso e mostro os dente com gosto!
Cheguei a San Juan e chutei minha mala para dentro do pátio com uma simpatia árida. Busquei um correio, uma caixa e uma fita. Abri a mala, e sem dó fui jogando tudo para fora. Voavam os creminhos, calças, meias, calcinhas, casacos e afins. Olhos atentos me fitavam com curiosidade. Cachorros sentaram a minha volta esperando ganhar algo. E assim a caixa foi enchendo...
Pegava a caixa, sentia o peso, leve demais.
Abria mais a mala e lá se iam cachecóis, luvas, blusas e o que mais fosse ao me ver, inútil. Fita adesiva, papel, caneta e um adeus não muito longo aos seis quilos de martírio.
Direção: Pueyrredon, 457, dep.47, piso 12. Buenos Aires. Destinatário: Frederico Tamagnini.
Definitivamente, não me importava o que ia gastar devido a isso, se iam receber ou que ficaria ao longo da viagem mais magrinha e feinha, uma mala leve, era isso que importava.

Mendoza, 00:46h
Lá fora faz um frio do caraleo e há poucos o “garoto punk-rock” que trabalha no hostel me convidou para ir a uma festa: “Pizza-party, all you can eat”!!
Sorri, agradeci e pensei: mas que animador, heim?!
Resumindo minha situação: estou em minha cama debaixo de dois cobertores, casacos e uma toalha de banho. Além, claro, do moletom novo que não deveria estar usando para dormir, ou seja, frio é frio e estou longe de pensar em conforto, se as roupas vão estragar e em pizza!
A cama é uma espécie de sarcófago, apertado e asfixiante. É incrível como certas pessoas sabem aproveitar espaços pequenos, ou pelo menos, tentam. Luto para encontrar uma posição para escrever e verifico temerosa com os dedos se estou segura. Não muito acima tem uma cama, e logo em seguida, outra. Dou graças a deus que estamos em baixa temporada, alemães bêbados escalando esse beliche é tudo que não preciso. Desisto da escrita, em poucas horas sigo para Maipú.
Mendoza . 9:30h . Faz frio...
Acordei e felizmente já era dia. Arrumei o cabelo, limpei a remela e fui para o banheiro iniciar meu “beauty time” matinal. A porta estava fechada e alguém tomava banho, mas como o banheiro é de todos, entrei. Despreocupada, segui o roteiro dando a entender que havia alguém no ambiente. Após uns quinze minutos, eis que enfim saio do box linda e cheirosa e me deparo com uma adorável cena: um homem de meia idade completamente nú, assoviando algo qualquer, rebola animado em frente ao espelho. Eu paro em choque e dou um sorriso amarelo, ele me olha como se estivesse vestido e diz: “buenoos diaaas”!
É, che! Depois dessa só tendo um ótimo dia!
No dia anterior havia me rendido ao "centro de informações turísticas", na tentativa de obter uma boa resposta à fatídica pergunta que não me canso de fazer: aonde posso achar algo mais popular e pessoas mais simples?
Ao ouvir isso, o rapaz de olhos claros me olhou fundo e riu com gosto. “Popular? Se você quer gente simples o que está fazendo em Mendoza? Vai para o campo, e o campo mais próximo é Maipú"! Listo! Dia seguinte lá ia eu, caminhando feliz e saltitante, rumo a Maipú!
Uniria enfim o útil ao agradável. Meus olhos brilhavam com a cadência de possibilidades, nada como a zona de produção dos melhores vinhos argentinos e os campesinos a trabalhar. Tudo estava lá: Finca Flichman, Trivento, La Rural e muitas outras. Tudo ao alcance dos olhos e é claro dos lábios.
Enfim o tal do “popular” que ansiava tanto por achar, enfim vinho direto da fonte!
Cheguei e logo aluguei uma bicicleta, estava empolgada. Peguei pães, roqueford, coloquei tudo na bike e iniciei a pedalada feliz e ansiosa por lindas fotos.
Pedalei e pedalei num frio de rachar.
E foi aí que começaram a passar a minha frente as pessoas "simples" mais bem vestidas que já vi na vida, campos tão bem roçados que mais pareciam cortados à régua. Comidas para lá de "popular", mas servidas em vastos jardins floridos. E é claro, vinícolas lindas, ordenadas e caríssimas!
Pois é, se isso é popular e simples, o que raios é o meu país? Um chiqueiro?
Foi nesse dia que começou minha “crise existencial criativa”, que posso dizer, anda me perseguindo até agora. Eu sinceramente não entendo porque esse país está em crise ou como tenho dinheiro para viver nesse lugar.
Pensem em um país lindo, com cidades ordenadas e ergonômicas. Pensem em um lugar que grande parte da população é inteligente, saudável e feliz. E para completar, pensem em um lugar em que até o primo de segundo grau do filho do padeiro é lindo! Pensou? Então, se achas que isso tudo é o paraíso o seu lugar é aqui!
Eu não estou reclamando, não! Mas me diz, com sinceridade, o que raios tem para fotografar nesse lugar?!
Se alguém tem algum comentário, algo que possa me animar, escreva no link abaixo. Só não mencionem a Bolivia, se não corto os pulsos! Definitivamente cansei de paisagens lindas e carros antigos. Onde estão as pessoas, onde esta a maldita expressão?
Talvez, alguém devesse botar fogo num desses lindos parques, imagine que fotos dariam?! O desespero dos “hermanos” ao ver seu paraíso em chamas! Loiras perfeitas se descabelariam e homens com o rosto cheio de fuligem teriam os olhos ainda mais claros. Ah, seria uma orgia fotográfica! Um êxtase!
Bem, enquanto isso não acontece sigo procurando e caçando, já estou em limiares da quinta parada e ainda pergunto:
-Aonde posso achar algo mais popular e pessoas mais simples e expressivas?
Se alguém souber, por favor, me diga!

Bem, a saída era deixar álcool, baladas e alguns muitos passeios de fora. Ah, restaurantes também estão fora de cogitação, além do que, não posso me empolgar muito no supermercado, coisa que para mim é mais divertido que Playcenter! E como sabem, aqui esta uma inflação deliciosa, coisa que colabora bastante para quem esta com a grana contada.
Até que o mês novamente iniciasse, assim seria. Foi o que fiz, ou melhor, o que estou fazendo já que no meu calendário bate 24/06. E o sorriso esta se mantendo, apesar do rostinho estar um pouco mais magrinho!
Calma, mami! Não se desespere, minha vida não é só empanada e alfajor, juro!
A Argentina tem um pequeno empecilho para seres “meio” pobres como eu, aqui é um pouco raro o tal do “popular”, como no Brasil, quem se diverte é rico! E por mais que argentino rico esteja em falta, gringo é o que não falta completar essa fatia!
Um meio de transporte barato para ir ver um lindo parque nacional ou um simples canyon, coisa que aqui tem mais que chuchu na cerca, é algo sempre bem exclusivo e caro. Não há coletivos, não há van com um “che” pendurado para fora a gritar “Vaaaale de la Lunaaaa”! As possibilidades são: você aluga um carro, vai ser explorado com os gringos rosados ou vai a pé! E, é a partir dessa lógica que vamos determinar o roteiro possível para uma fotografa zuca “sin plata” na Argentina! As histórias seguem e te digo, já fui a pé, já aluguei bicicleta e já provei para mim mesma que dá para se divertir com pouco!
Aventura 1
Uspallata y Penitentes . Mendoza . AR
Creio que é bem comum do ser humano se iludir,criar milhares de desculpas e discursos para justificar suas opções, a minha é "vamos evitar lugares muito turísticos e optar por conhecer o que a Argentina tem de popular"! Isso é mais que verdade, mas por mim conhecia é tudo! Turistico, meio-turistico, semi-turistico e não-turistico! Mas como sabem que a grana esta curta, vamos seguir com esse discurso do tal do “popular”, se ele existir, garanto que pelo menos é mais barato!
Quando acordei ainda era noite e o ônibus saia às sete. Estava tudo preparado. Roupas, meias e botas já posicionadas e esperando meu corpo quente recém desperto para assim manter o calor. Hoje eu ia, pela primeira vez, ver neve! Corri pela rua fria e no meio do caminho percebi que esquecia bateria extra e a bateria da câmera pequena, ou seja, mais uma coisa para economizar e filminhos de “eu comendo neve” ficariam para uma próxima vez.
Segui para a rodoviária, comprei uma coca, um “miga simples” e fui em direção ao ônibus. Ao chegar duas coisas me chamaram a atenção, uma era que nunca havia visto uma aglomeração tão grande de loiros, uma coisa assustadora, e o outra era o ônibus. Che, bueníssimo! Já pensava nas 4hs de sono mais que profundos deitada na minha confortável semi-cama.
Deixei lá fora o “mar rúbio” e entrei no ônibus, estava vazio, com exceção de duas garotas sentadas no canto esquerdo. Fui olhando e procurando meu número, e olha que coincidência! A única "gringa" morena de Mendoza estava sentada na minha linda e confortável semi-cama! Chamei o motorista, ele chegou quando ela já estava a parir um alemãozinho no meio da passagem. Ele me olhou, deu um sorriso amarelo e disse: “tienes, equipage”. Respondi “no”. E ele suspirou aliviado, “entonces, hay otro bus para vos”!
Foi ai que eu vi a visão do inferno. Bem ao lado, um pequeno ônibus caquético e cinza. Parei, respirei e entrei. As luzes esverdeadas falhavam, caminhei e afundei em algo que parecia uma poltrona, tentei baixar o encosto, sem sucesso. E para completar com chave de ouro, não tinha calefação e fazia um frio do caraleo!
Me senti como a menininha da “caixa de fósforos” quando olhei para o ônibus que a pouco estava. Era como ver uma sala de estar em pleno natal, família reunida em frente à lareira quente, e eu ali embaixo na semi-escuridão esverdeada, enquanto aqueles loiros riam em seus casacos quentinhos sentados sob uma luz cálida e amarela. Puta madre, che!
A viagem seguiu, e agradeço a deus por ter a facilidade de dormir até embaixo de chuva de granizo!
E como tudo passa, as horas passaram. Em certo momento despertei, abri a cortina e não podia acreditar. Serpenteavamos uma estrada fina, cortando em dois a Cordilheira dos Andes. Montanhas se erguiam sólidas a minha volta, e bem ao fundo o sol nascia iluminando montes nevados. Os olhos encheram de lágrimas, como sou feliz de ser deslumbrada! Pedi a minha memória que guardasse para sempre aquela imagem, e como não confio plenamente nela, saquei a câmera.
Dai por diante desenvolvi e me especializei em uma nova técnica para fotografar dentro de ônibus que tremem mais que vara verde. Bolivia, ai vou eu! Quando o vidro estava sujo demais, porque creio que não limpavam pelo menos há uns dois anos, respirava bem fundo, pensava em vocês e no meu amor pela profissão, e abria! É algo indescritível o vento zero graus batendo a oitenta por hora em meu delicado rostinho! Inesquecível e traumático, igual a vez que vi o show do KISS de saia e camiseta com uma temperatura bem agradável de 4 graus. Experiências para a vida, poderia dizer.
Acho que nunca vou esquecer o momento que o ônibus virou uma curva, e num piscar de olhos tudo era branco e fofo. Fiquei em choque. Uma espuma cobria pedras e colinas delicadamente, não parecia frio e sim aconchegante. Nunca havia visto neve em minha vida, e me pus maravilhada e encantada. Sai do ônibus feliz e saltitante, ri sozinha por horas! Ventada e fazia um frio negativo mas isso pouco importava, eu tinha neve!!
Depois de andar, fotografar e alugar botinhas quentes, comecei a perceber o ambiente a minha volta e por incrível que pareça, fiquei profundamente triste. Estava em um lugar tão lindo e estava só. Ah, a neve definitivamente é para se estar entre amigos, com um amante ou em meio a familia, e era assim que estavam todos ali, acompanhados.
Me sentei na neve, afundei os dedos no gelo frio e pensei que a única saída para burlar a minha tristeza melancólica era beber da felicidade alheia e das lembranças. E por aí fui. Enchi meu peito de felicidade observando crianças, familias a rir e amigos a se divertir. E é claro, aluguei um trenó para rasgar em alta velocidade as colinas, arrumei um belo poste para acertar minhas gordas bolinhas de neve, fiz um boneco e até provei, como uma amante da culinária, um bom naco para ver que gosto tinha! E assim foi meu dia: delicioso, quente e repleto de amigos que não conheci. Em meio a um frio de rachar, meu desejo foi apenas que na próxima vez não falte companhia.
Alguém se habilita?

Creio que “não” já não é suficiente.
Sigo envolta de turbulências que agitam meu novo país, e como ainda estou a maturar a casca que me define como estrangeira, sigo nesse mar bravio em um bote, um pequeno bote já quase insuficiente. O mergulho no oceano já se mostra inevitável.
Cartazes adornam mercados nos privando de um bom banquete no país que também é de fartura. Falta carne, falta óleo, falta farinha, falta...
Faltam decisões e o país se mostra perturbado e raivoso. Mas a raiva Argentina tem um tom europeu-latino, uma mistura rara que só se vê aqui. Enquanto em nosso país as ruas transbordariam de crianças semi-ignorantes de cabelos duros, afiados, queimando bandeiras e com bolsos cheios de sedentas pedras, ansiosas por um Bush qualquer. Aqui o povo canta em unison com panelas na madrugada.
Polidos e incisivos os gritos bem colocados perturbam, mas não o próprio povo, porque esse está sem exceção na rua lembrando à consciência que “quem não chora, não mama”. Ficar calado aqui não é o perfil e quando a noite se mostra densa saem para acalenta-la com a soma de gerações. E por ai marcham centenas e milhares, alimentando as manifestações que não param, na verdade, se multiplicam instigadas por um ácido apetite. Bem, acho que chegou a hora de darmos um novo uso para colheres, tampas, buzinas, panelas, gargantas e pupilas.
Dale, hermanos!

Mendoza tem o ar de cidade modelo, pequena luz dos olhos... impecável.
Dezenas de hotéis e hostels aguardam sedentos o inicio da temporada alta, o inverno, que esta nos limiares de começar. A cidade então infla triunfante cheia da mais alta sociedade. Mendoza é a cidade dos vinhos argentinos mais famosos do mundo e merece o titulo, merece porque tem classe e porque o vinho é de babar.
Se estende “dorada” com centenas de árvores sobriamente colocadas e arrumadas em fila. Os parques são de encher os olhos e caminhamos com prazer horas a fio por caminhos intermináveis.
Acabo por concluir que Mendoza é daquelas cidades para se ter uma boa velhice ou uma deliciosa infância. Uma cidade para vir a dois, ou para casais apaixonados cheios de filhos lindos e que gostam de passear com o cachorro no parque.
Mendoza é a cidade da "Família Doriana"!
Talvez seja o vinho, ou apenas o ar frio e delicioso, mas esse lugar inspira saúde e desde que cheguei ando fotografando passarinhos, comendo no parque e andando, andando horas por ai... a suspirar.
Um brinde, chers!
Enfim a viagem começa e as minhas mãos tremem...
Chego cedo à rodoviária após um dia tranquilo e ensolarado, uma coleção de empanadas de catupiry me esperam na bolsa, estou feliz. Me aconchego em um desses bancos azuis desconfortáveis, tudo parece bom, descanso as costas que já gritam. É incrível como é difícil fazer uma mala, há dias roupas e afins passam por uma inspeção quase nazista, onde tudo tem um fim ou uso. Para mim a mala é um ponto preocupante, há tempos que tenho as costas frágeis devido a um tombo matinal em uma escadaria de madeira bem sólida, dos tempos que havia a preocupação em fazer coisas resistentes.
Uma das grande dificuldade em ser fotógrafo são os equipamentos, é bem pesado ter filhos eletrônicos, além do mais, é a primeira vez que faço uma viagem longa com meu laptop e já sinto as conseqüências de ter uma tela widescreen em minhas costas, mas te falar...santa invenção!!!
A rodoviária é um verdadeiro “quilombo”, por aqui as companhias de ônibus se apinham aos cachos em um não muito grande espaço, e conseqüentemente passo da minha felicidade incondicional para um vai e vem angustiante, na tentativa de descobrir meu ônibus que teoricamente estacionaria entre as plataformas 19 e 42, muito animador e excitante, poderia dizer. A questão é que após andar de um lado para o outro por pelo menos meia hora, já começo a sentir aquele comichão bem brasileiro, ou seja, bem pessimista e derrotista de que tem algo errado. Uma voz abafada fala em fracas caixas de som que se espalham pelo ambiente, forço os ouvidos para entender algo, sem sucesso. Tento ler ou ver os nomes dos ônibus no painel eletrônico e me sinto mais confusa.
Pontualmente as 19:45h, quando eu já estava a arrancar os cabelos em total desespero devido a: 1.ter perdido a viagem, 2.não compreender nada, 3.ter andando de um lado para o outro e não ter encontrado o maldito ônibus, 4...
Entendo enfim algo bem familiar vindo da caixa de som acima de minha cabeça: - Marilia Pellicciotta comparecer a boleteria 47! Mariliaaa Pellicciottaaaa comparecer a boleteria 47!!!
Rasgo o salão, a mala nunca pareceu tão leve, subo correndo as escadarias e os cabelos revoltos tapam a vista, tento enxergar ou entender algo em meio a suor e o pulsar do peito ofegante e apenas vejo: a boleteria 47, um senhor feio de óculos e a sua mão, ela abana algo...meu cartão do banco!!! Puta madre, che!
Pois é, mal comecei e já dou uma dessas, bem diria papai :
- Marilia, Mariliaaaa... essas coisas só acontecem com você, porra...não acrediiitooo!
E já começaria a espumar e ter um acesso nervoso. Bem, creio que ele está lendo isso agora e te digo, papi: tudo dá certo no fim das contas e confirmo, é tem coisas que só acontecem comigo!
Ah, e quanto ao ônibus, ele não veio mesmo, me botaram em um outro! Trinta minutos depois estava eu nos bancos azuis novamente, a tal felicidade incondicional se expressava pelas dentadas em uma bela empanada. Em vez de pernas, o que caminhavam eram os olhos, esse agora chegaria entre a plataforma 9 e 12...menos mal!