
A viagem começou já na contagem das moedas, despesas de pré-viagem e dez dias de Buenos Aires podem comprometer bem um orçamento, acreditem. Acabei por não tomar isso como um obstáculo, me privaria de certas coisas e estaria tudo resolvido. Poderia usar de muleta a expressão “nunca podemos ter tudo o que queremos”, mas não vamos cuspir no prato, bem sei como essa viagem é rara e poderia enumerar muitos que gostariam fazer o que estou fazendo e definitivamente não podem! Então sorria, garota!!
Bem, a saída era deixar álcool, baladas e alguns muitos passeios de fora. Ah, restaurantes também estão fora de cogitação, além do que, não posso me empolgar muito no supermercado, coisa que para mim é mais divertido que Playcenter! E como sabem, aqui esta uma inflação deliciosa, coisa que colabora bastante para quem esta com a grana contada.
Até que o mês novamente iniciasse, assim seria. Foi o que fiz, ou melhor, o que estou fazendo já que no meu calendário bate 24/06. E o sorriso esta se mantendo, apesar do rostinho estar um pouco mais magrinho!
Calma, mami! Não se desespere, minha vida não é só empanada e alfajor, juro!
A Argentina tem um pequeno empecilho para seres “meio” pobres como eu, aqui é um pouco raro o tal do “popular”, como no Brasil, quem se diverte é rico! E por mais que argentino rico esteja em falta, gringo é o que não falta completar essa fatia!
Um meio de transporte barato para ir ver um lindo parque nacional ou um simples canyon, coisa que aqui tem mais que chuchu na cerca, é algo sempre bem exclusivo e caro. Não há coletivos, não há van com um “che” pendurado para fora a gritar “Vaaaale de la Lunaaaa”! As possibilidades são: você aluga um carro, vai ser explorado com os gringos rosados ou vai a pé! E, é a partir dessa lógica que vamos determinar o roteiro possível para uma fotografa zuca “sin plata” na Argentina! As histórias seguem e te digo, já fui a pé, já aluguei bicicleta e já provei para mim mesma que dá para se divertir com pouco!
Aventura 1
Uspallata y Penitentes . Mendoza . AR
Creio que é bem comum do ser humano se iludir,criar milhares de desculpas e discursos para justificar suas opções, a minha é "vamos evitar lugares muito turísticos e optar por conhecer o que a Argentina tem de popular"! Isso é mais que verdade, mas por mim conhecia é tudo! Turistico, meio-turistico, semi-turistico e não-turistico! Mas como sabem que a grana esta curta, vamos seguir com esse discurso do tal do “popular”, se ele existir, garanto que pelo menos é mais barato!
Quando acordei ainda era noite e o ônibus saia às sete. Estava tudo preparado. Roupas, meias e botas já posicionadas e esperando meu corpo quente recém desperto para assim manter o calor. Hoje eu ia, pela primeira vez, ver neve! Corri pela rua fria e no meio do caminho percebi que esquecia bateria extra e a bateria da câmera pequena, ou seja, mais uma coisa para economizar e filminhos de “eu comendo neve” ficariam para uma próxima vez.
Segui para a rodoviária, comprei uma coca, um “miga simples” e fui em direção ao ônibus. Ao chegar duas coisas me chamaram a atenção, uma era que nunca havia visto uma aglomeração tão grande de loiros, uma coisa assustadora, e o outra era o ônibus. Che, bueníssimo! Já pensava nas 4hs de sono mais que profundos deitada na minha confortável semi-cama.
Deixei lá fora o “mar rúbio” e entrei no ônibus, estava vazio, com exceção de duas garotas sentadas no canto esquerdo. Fui olhando e procurando meu número, e olha que coincidência! A única "gringa" morena de Mendoza estava sentada na minha linda e confortável semi-cama! Chamei o motorista, ele chegou quando ela já estava a parir um alemãozinho no meio da passagem. Ele me olhou, deu um sorriso amarelo e disse: “tienes, equipage”. Respondi “no”. E ele suspirou aliviado, “entonces, hay otro bus para vos”!
Foi ai que eu vi a visão do inferno. Bem ao lado, um pequeno ônibus caquético e cinza. Parei, respirei e entrei. As luzes esverdeadas falhavam, caminhei e afundei em algo que parecia uma poltrona, tentei baixar o encosto, sem sucesso. E para completar com chave de ouro, não tinha calefação e fazia um frio do caraleo!
Me senti como a menininha da “caixa de fósforos” quando olhei para o ônibus que a pouco estava. Era como ver uma sala de estar em pleno natal, família reunida em frente à lareira quente, e eu ali embaixo na semi-escuridão esverdeada, enquanto aqueles loiros riam em seus casacos quentinhos sentados sob uma luz cálida e amarela. Puta madre, che!
A viagem seguiu, e agradeço a deus por ter a facilidade de dormir até embaixo de chuva de granizo!
E como tudo passa, as horas passaram. Em certo momento despertei, abri a cortina e não podia acreditar. Serpenteavamos uma estrada fina, cortando em dois a Cordilheira dos Andes. Montanhas se erguiam sólidas a minha volta, e bem ao fundo o sol nascia iluminando montes nevados. Os olhos encheram de lágrimas, como sou feliz de ser deslumbrada! Pedi a minha memória que guardasse para sempre aquela imagem, e como não confio plenamente nela, saquei a câmera.

Dai por diante desenvolvi e me especializei em uma nova técnica para fotografar dentro de ônibus que tremem mais que vara verde. Bolivia, ai vou eu! Quando o vidro estava sujo demais, porque creio que não limpavam pelo menos há uns dois anos, respirava bem fundo, pensava em vocês e no meu amor pela profissão, e abria! É algo indescritível o vento zero graus batendo a oitenta por hora em meu delicado rostinho! Inesquecível e traumático, igual a vez que vi o show do KISS de saia e camiseta com uma temperatura bem agradável de 4 graus. Experiências para a vida, poderia dizer.
Chegamos a Uspallata eu me vi em uma linda e brilhante "roubada". Não havia nada além de frio, e como meu forte é a sorte, havia comprado a passagem até ali. Naquele momento passei a amar o ônibus, já havia me acomodado entre as molas, e dali não ia sair. Dei uma de brasileira e me fingi de morta, como os hermanos nunca imaginam uma contravenção, ia seguir viagem sem pagar nada. Afinal qual seria o idiota que iria a Uspallata: eu! Coisa típica de fotógrafo que anseia coisas raras, na verdade, vivemos procurando é pêlo em ovo!
Ali fiquei em uma posição de "estou dormindo" por dez minutos, vinte minutos, meia hora. Realmente não sei se foi algum pingo de bom senso ou somente irritação, só sei que levantei e disse a mim mesma" vou pagar"! E foi a melhor coisa que fiz.
Dez minutos depois estava no ônibus quente e confortável com um belo café nas mãos e um largo sorriso no rosto. Optei por me sentar na escadaria bem ao lado do motorista gordinho e simpático e beber da paisagem que se mostrava por um panorâmico de vidro, dessa vez limpo.
A minha vingança contra os loiros se deu em um pequeno empecilho técnico, o ônibus apresentou problemas, e infelizmente teríamos que viajar a 20 km por hora até Penitentes. Ah, deleite! O admirável mundo novo enfim passava devagar para minha lente! Andes, neve, nuvens e céu azul, tudo ali ao alcance dos olhos,e é claro "gringos" inconformados com a velocidade, o que mais poderia querer? E para completar sacaram da bolsa um cd do Elvis Presley, tacaram na vitrola e lá fomos nós balançando até o mundo nevado!
Acho que nunca vou esquecer o momento que o ônibus virou uma curva, e num piscar de olhos tudo era branco e fofo. Fiquei em choque. Uma espuma cobria pedras e colinas delicadamente, não parecia frio e sim aconchegante. Nunca havia visto neve em minha vida, e me pus maravilhada e encantada. Sai do ônibus feliz e saltitante, ri sozinha por horas! Ventada e fazia um frio negativo mas isso pouco importava, eu tinha neve!!
Depois de andar, fotografar e alugar botinhas quentes, comecei a perceber o ambiente a minha volta e por incrível que pareça, fiquei profundamente triste. Estava em um lugar tão lindo e estava só. Ah, a neve definitivamente é para se estar entre amigos, com um amante ou em meio a familia, e era assim que estavam todos ali, acompanhados.
Me sentei na neve, afundei os dedos no gelo frio e pensei que a única saída para burlar a minha tristeza melancólica era beber da felicidade alheia e das lembranças. E por aí fui. Enchi meu peito de felicidade observando crianças, familias a rir e amigos a se divertir. E é claro, aluguei um trenó para rasgar em alta velocidade as colinas, arrumei um belo poste para acertar minhas gordas bolinhas de neve, fiz um boneco e até provei, como uma amante da culinária, um bom naco para ver que gosto tinha! E assim foi meu dia: delicioso, quente e repleto de amigos que não conheci. Em meio a um frio de rachar, meu desejo foi apenas que na próxima vez não falte companhia.
Alguém se habilita?