segunda-feira, 30 de junho de 2008

Tá achando que é facil ser filha do che guevara?


Carta escrita por Che, felicitando o aniversário de sua filha mais velha, Hilda.

"Febrero 15 de 1966

Hildita querida:

Hoy te escribo aunque la carta llegará bastante después; pero quiero sepas que me acuerdo de ti y espero que estés pasando tu cumpleaños muy feliz. Ya eres casi una mujer, y no se te puede escribir como a los niños, contándoles boberías o mentiritas.

Has de saber que sigo lejos y que estaré mucho tiempo alejado de ti, haciendo lo que pueda para luchar contra nuestros enemigos. No es que sea gran cosa pero algo hago, y creo que podrás estar siempre orgullosa de tu padre, como yo lo estoy de ti.

Acuérdate que todavía faltan muchos años de lucha, y aún cuando seas mujer tendrás que hacer tu parte en la lucha.

Mientras, hay que prepararse, ser muy revolucionaria, que tu edad quiere decir mucho, lo más possible, y estar siempre lista de apoyar las causas justas. Además, obedece a tu mammá y no creerte de todo antes de tiempo. Ya llegará eso

Debes luchar por ser de las mejores en la escuela. Mejor en todo sentido, ya sabes lo que quiere decir: estudio y actitud revolucionaria, vale decir: buena conducta, seriedad, amor a la Revolución, compañeirismo, etc.

Yo no era así cuando tenía tu edad, pero estaba en una sociedad distinta donde el hombre era el enemigo del hombre. Ahora tú tienes el privilegio de vivir otra época y hay que ser digno de ella.

No te olvides de dar una vuelta por la casa para vigilar a los otros críos y aconsejarles que estudien y se porten bien. Sobre todo Aleidita, que te hace mucho caso como hermana mayor.

Bueno, vieja, otra vez, lo que pases muy feliz en tu cumpleaños. Dale un abrazo a tu mamá y a Gina, y recibe tú uno grandote y fortísimo que valga por todo el tiempo que no nos veremos.

de tu
Papá"

Lá estava eu no "Museu Che Guevara" e essa carta me chamou mais que a atenção. Trago ela aqui para dividir a sensação e o que não pude deixar de pensar:

"E nós aqui reclamando dos pais! Nada fácil ser a filhota do sr. che. Conduta revolucionária? Rapaz, já não posso imaginar o que raios significa isso!"

Para os que ainda não sabem...

O vovô Guevara, que completou uns oitenta e poucos anos agora em 15 de junho, não é cubano e sim, Argentino. Possui um museu na pequena cidade de Alta Gracia, a mais ou menos uma hora de Córdoba. Essa cidade foi recomendada pelos médicos no intuito de amenizar uma infância asmática. Juntamente com Cuba, essa casa contém pertences, cartas e fotos do mais que conhecido "Che". Pude degustar ao vivo e a cores de "la poderosa", além de ver a bicicleta usada por "Ernestito"em sua primeira viagem pela Argentina. E posso te contar que a "magrela" era motorizada, pô assim fica fácil, che!




A mochila


Cheguei a rodoviária após uma meditação raivosa e zen. Mais um quarteirão caminhando e iria me tornar uma santa após distribuir noventa por cento dos meus pertences aos fracos e oprimidos da cidade de Mendoza.

A mochila pesava a ponto de doer as costelas.

A cada metro que caminhava, mais intensa e visceral era a ladainha que rosnava para mim e todos a minha volta: “só preciso de duas calças, duas camisetas, duas calcinhas e um agasalho. Só preciso de duas calças...”.

Cheguei em frente ao ônibus quando não mais me suportava. Larguei o defunto no chão, respirei fundo e dei uma boa gorjeta na mão do rapaz que guardava as malas. Tudo doía e não há coisa que mais me irrite que dor desnecessária, uma dor aguda, como quando topamos o dedinho na cadeira da sala. Puta madre, che!

Minha viagem de 4hs foi relaxante, por alguns momentos até pensei que meu bom humor poderia voltar, mas a lembrança da mala definitivamente me perturbava. Agradeço por estar só, tem horas que posso ser um cão raivoso e mostro os dente com gosto!

Cheguei a San Juan e chutei minha mala para dentro do pátio com uma simpatia árida. Busquei um correio, uma caixa e uma fita. Abri a mala, e sem dó fui jogando tudo para fora. Voavam os creminhos, calças, meias, calcinhas, casacos e afins. Olhos atentos me fitavam com curiosidade. Cachorros sentaram a minha volta esperando ganhar algo. E assim a caixa foi enchendo...

Pegava a caixa, sentia o peso, leve demais.

Abria mais a mala e lá se iam cachecóis, luvas, blusas e o que mais fosse ao me ver, inútil. Fita adesiva, papel, caneta e um adeus não muito longo aos seis quilos de martírio.

Direção: Pueyrredon, 457, dep.47, piso 12. Buenos Aires. Destinatário: Frederico Tamagnini.

Definitivamente, não me importava o que ia gastar devido a isso, se iam receber ou que ficaria ao longo da viagem mais magrinha e feinha, uma mala leve, era isso que importava.


Crise existencial, se brinda com vinho?


Mendoza, 00:46h

Lá fora faz um frio do caraleo e há poucos o “garoto punk-rock” que trabalha no hostel me convidou para ir a uma festa: “Pizza-party, all you can eat”!!

Sorri, agradeci e pensei: mas que animador, heim?!

Resumindo minha situação: estou em minha cama debaixo de dois cobertores, casacos e uma toalha de banho. Além, claro, do moletom novo que não deveria estar usando para dormir, ou seja, frio é frio e estou longe de pensar em conforto, se as roupas vão estragar e em pizza!

A cama é uma espécie de sarcófago, apertado e asfixiante. É incrível como certas pessoas sabem aproveitar espaços pequenos, ou pelo menos, tentam. Luto para encontrar uma posição para escrever e verifico temerosa com os dedos se estou segura. Não muito acima tem uma cama, e logo em seguida, outra. Dou graças a deus que estamos em baixa temporada, alemães bêbados escalando esse beliche é tudo que não preciso. Desisto da escrita, em poucas horas sigo para Maipú.

Mendoza . 9:30h . Faz frio...

Acordei e felizmente já era dia. Arrumei o cabelo, limpei a remela e fui para o banheiro iniciar meu “beauty time” matinal. A porta estava fechada e alguém tomava banho, mas como o banheiro é de todos, entrei. Despreocupada, segui o roteiro dando a entender que havia alguém no ambiente. Após uns quinze minutos, eis que enfim saio do box linda e cheirosa e me deparo com uma adorável cena: um homem de meia idade completamente nú, assoviando algo qualquer, rebola animado em frente ao espelho. Eu paro em choque e dou um sorriso amarelo, ele me olha como se estivesse vestido e diz: “buenoos diaaas”!

É, che! Depois dessa só tendo um ótimo dia!

No dia anterior havia me rendido ao "centro de informações turísticas", na tentativa de obter uma boa resposta à fatídica pergunta que não me canso de fazer: aonde posso achar algo mais popular e pessoas mais simples?

Ao ouvir isso, o rapaz de olhos claros me olhou fundo e riu com gosto. “Popular? Se você quer gente simples o que está fazendo em Mendoza? Vai para o campo, e o campo mais próximo é Maipú"! Listo! Dia seguinte lá ia eu, caminhando feliz e saltitante, rumo a Maipú!

Uniria enfim o útil ao agradável. Meus olhos brilhavam com a cadência de possibilidades, nada como a zona de produção dos melhores vinhos argentinos e os campesinos a trabalhar. Tudo estava lá: Finca Flichman, Trivento, La Rural e muitas outras. Tudo ao alcance dos olhos e é claro dos lábios.

Enfim o tal do “popular” que ansiava tanto por achar, enfim vinho direto da fonte!

Cheguei e logo aluguei uma bicicleta, estava empolgada. Peguei pães, roqueford, coloquei tudo na bike e iniciei a pedalada feliz e ansiosa por lindas fotos.

Pedalei e pedalei num frio de rachar.

E foi aí que começaram a passar a minha frente as pessoas "simples" mais bem vestidas que já vi na vida, campos tão bem roçados que mais pareciam cortados à régua. Comidas para lá de "popular", mas servidas em vastos jardins floridos. E é claro, vinícolas lindas, ordenadas e caríssimas!

Pois é, se isso é popular e simples, o que raios é o meu país? Um chiqueiro?

Foi nesse dia que começou minha “crise existencial criativa”, que posso dizer, anda me perseguindo até agora. Eu sinceramente não entendo porque esse país está em crise ou como tenho dinheiro para viver nesse lugar.

Pensem em um país lindo, com cidades ordenadas e ergonômicas. Pensem em um lugar que grande parte da população é inteligente, saudável e feliz. E para completar, pensem em um lugar em que até o primo de segundo grau do filho do padeiro é lindo! Pensou? Então, se achas que isso tudo é o paraíso o seu lugar é aqui!

Eu não estou reclamando, não! Mas me diz, com sinceridade, o que raios tem para fotografar nesse lugar?!

Se alguém tem algum comentário, algo que possa me animar, escreva no link abaixo. Só não mencionem a Bolivia, se não corto os pulsos! Definitivamente cansei de paisagens lindas e carros antigos. Onde estão as pessoas, onde esta a maldita expressão?

Talvez, alguém devesse botar fogo num desses lindos parques, imagine que fotos dariam?! O desespero dos “hermanos” ao ver seu paraíso em chamas! Loiras perfeitas se descabelariam e homens com o rosto cheio de fuligem teriam os olhos ainda mais claros. Ah, seria uma orgia fotográfica! Um êxtase!

Bem, enquanto isso não acontece sigo procurando e caçando, já estou em limiares da quinta parada e ainda pergunto:

-Aonde posso achar algo mais popular e pessoas mais simples e expressivas?

Se alguém souber, por favor, me diga!












terça-feira, 24 de junho de 2008

let´s rooock, baby!


A viagem começou já na contagem das moedas, despesas de pré-viagem e dez dias de Buenos Aires podem comprometer bem um orçamento, acreditem. Acabei por não tomar isso como um obstáculo, me privaria de certas coisas e estaria tudo resolvido. Poderia usar de muleta a expressão “nunca podemos ter tudo o que queremos”, mas não vamos cuspir no prato, bem sei como essa viagem é rara e poderia enumerar muitos que gostariam fazer o que estou fazendo e definitivamente não podem! Então sorria, garota!!

Bem, a saída era deixar álcool, baladas e alguns muitos passeios de fora. Ah, restaurantes também estão fora de cogitação, além do que, não posso me empolgar muito no supermercado, coisa que para mim é mais divertido que Playcenter! E como sabem, aqui esta uma inflação deliciosa, coisa que colabora bastante para quem esta com a grana contada.

Até que o mês novamente iniciasse, assim seria. Foi o que fiz, ou melhor, o que estou fazendo já que no meu calendário bate 24/06. E o sorriso esta se mantendo, apesar do rostinho estar um pouco mais magrinho!

Calma, mami! Não se desespere, minha vida não é só empanada e alfajor, juro!

A Argentina tem um pequeno empecilho para seres “meio” pobres como eu, aqui é um pouco raro o tal do “popular”, como no Brasil, quem se diverte é rico! E por mais que argentino rico esteja em falta, gringo é o que não falta completar essa fatia!

Um meio de transporte barato para ir ver um lindo parque nacional ou um simples canyon, coisa que aqui tem mais que chuchu na cerca, é algo sempre bem exclusivo e caro. Não há coletivos, não há van com um “che” pendurado para fora a gritar “Vaaaale de la Lunaaaa”! As possibilidades são: você aluga um carro, vai ser explorado com os gringos rosados ou vai a pé! E, é a partir dessa lógica que vamos determinar o roteiro possível para uma fotografa zuca “sin plata” na Argentina! As histórias seguem e te digo, já fui a pé, já aluguei bicicleta e já provei para mim mesma que dá para se divertir com pouco!

Aventura 1

Uspallata y Penitentes . Mendoza . AR

Creio que é bem comum do ser humano se iludir,criar milhares de desculpas e discursos para justificar suas opções, a minha é "vamos evitar lugares muito turísticos e optar por conhecer o que a Argentina tem de popular"! Isso é mais que verdade, mas por mim conhecia é tudo! Turistico, meio-turistico, semi-turistico e não-turistico! Mas como sabem que a grana esta curta, vamos seguir com esse discurso do tal do “popular”, se ele existir, garanto que pelo menos é mais barato!

Quando acordei ainda era noite e o ônibus saia às sete. Estava tudo preparado. Roupas, meias e botas já posicionadas e esperando meu corpo quente recém desperto para assim manter o calor. Hoje eu ia, pela primeira vez, ver neve! Corri pela rua fria e no meio do caminho percebi que esquecia bateria extra e a bateria da câmera pequena, ou seja, mais uma coisa para economizar e filminhos de “eu comendo neve” ficariam para uma próxima vez.

Segui para a rodoviária, comprei uma coca, um “miga simples” e fui em direção ao ônibus. Ao chegar duas coisas me chamaram a atenção, uma era que nunca havia visto uma aglomeração tão grande de loiros, uma coisa assustadora, e o outra era o ônibus. Che, bueníssimo! Já pensava nas 4hs de sono mais que profundos deitada na minha confortável semi-cama.

Deixei lá fora o “mar rúbio” e entrei no ônibus, estava vazio, com exceção de duas garotas sentadas no canto esquerdo. Fui olhando e procurando meu número, e olha que coincidência! A única "gringa" morena de Mendoza estava sentada na minha linda e confortável semi-cama! Chamei o motorista, ele chegou quando ela já estava a parir um alemãozinho no meio da passagem. Ele me olhou, deu um sorriso amarelo e disse: “tienes, equipage”. Respondi “no”. E ele suspirou aliviado, “entonces, hay otro bus para vos”!

Foi ai que eu vi a visão do inferno. Bem ao lado, um pequeno ônibus caquético e cinza. Parei, respirei e entrei. As luzes esverdeadas falhavam, caminhei e afundei em algo que parecia uma poltrona, tentei baixar o encosto, sem sucesso. E para completar com chave de ouro, não tinha calefação e fazia um frio do caraleo!

Me senti como a menininha da “caixa de fósforos” quando olhei para o ônibus que a pouco estava. Era como ver uma sala de estar em pleno natal, família reunida em frente à lareira quente, e eu ali embaixo na semi-escuridão esverdeada, enquanto aqueles loiros riam em seus casacos quentinhos sentados sob uma luz cálida e amarela. Puta madre, che!

A viagem seguiu, e agradeço a deus por ter a facilidade de dormir até embaixo de chuva de granizo!

E como tudo passa, as horas passaram. Em certo momento despertei, abri a cortina e não podia acreditar. Serpenteavamos uma estrada fina, cortando em dois a Cordilheira dos Andes. Montanhas se erguiam sólidas a minha volta, e bem ao fundo o sol nascia iluminando montes nevados. Os olhos encheram de lágrimas, como sou feliz de ser deslumbrada! Pedi a minha memória que guardasse para sempre aquela imagem, e como não confio plenamente nela, saquei a câmera.

Dai por diante desenvolvi e me especializei em uma nova técnica para fotografar dentro de ônibus que tremem mais que vara verde. Bolivia, ai vou eu! Quando o vidro estava sujo demais, porque creio que não limpavam pelo menos há uns dois anos, respirava bem fundo, pensava em vocês e no meu amor pela profissão, e abria! É algo indescritível o vento zero graus batendo a oitenta por hora em meu delicado rostinho! Inesquecível e traumático, igual a vez que vi o show do KISS de saia e camiseta com uma temperatura bem agradável de 4 graus. Experiências para a vida, poderia dizer.

Chegamos a Uspallata eu me vi em uma linda e brilhante "roubada". Não havia nada além de frio, e como meu forte é a sorte, havia comprado a passagem até ali. Naquele momento passei a amar o ônibus, já havia me acomodado entre as molas, e dali não ia sair. Dei uma de brasileira e me fingi de morta, como os hermanos nunca imaginam uma contravenção, ia seguir viagem sem pagar nada. Afinal qual seria o idiota que iria a Uspallata: eu! Coisa típica de fotógrafo que anseia coisas raras, na verdade, vivemos procurando é pêlo em ovo!

Ali fiquei em uma posição de "estou dormindo" por dez minutos, vinte minutos, meia hora. Realmente não sei se foi algum pingo de bom senso ou somente irritação, só sei que levantei e disse a mim mesma" vou pagar"! E foi a melhor coisa que fiz.

Dez minutos depois estava no ônibus quente e confortável com um belo café nas mãos e um largo sorriso no rosto. Optei por me sentar na escadaria bem ao lado do motorista gordinho e simpático e beber da paisagem que se mostrava por um panorâmico de vidro, dessa vez limpo.

A minha vingança contra os loiros se deu em um pequeno empecilho técnico, o ônibus apresentou problemas, e infelizmente teríamos que viajar a 20 km por hora até Penitentes. Ah, deleite! O admirável mundo novo enfim passava devagar para minha lente! Andes, neve, nuvens e céu azul, tudo ali ao alcance dos olhos,e é claro "gringos" inconformados com a velocidade, o que mais poderia querer? E para completar sacaram da bolsa um cd do Elvis Presley, tacaram na vitrola e lá fomos nós balançando até o mundo nevado!

Acho que nunca vou esquecer o momento que o ônibus virou uma curva, e num piscar de olhos tudo era branco e fofo. Fiquei em choque. Uma espuma cobria pedras e colinas delicadamente, não parecia frio e sim aconchegante. Nunca havia visto neve em minha vida, e me pus maravilhada e encantada. Sai do ônibus feliz e saltitante, ri sozinha por horas! Ventada e fazia um frio negativo mas isso pouco importava, eu tinha neve!!

Depois de andar, fotografar e alugar botinhas quentes, comecei a perceber o ambiente a minha volta e por incrível que pareça, fiquei profundamente triste. Estava em um lugar tão lindo e estava só. Ah, a neve definitivamente é para se estar entre amigos, com um amante ou em meio a familia, e era assim que estavam todos ali, acompanhados.

Me sentei na neve, afundei os dedos no gelo frio e pensei que a única saída para burlar a minha tristeza melancólica era beber da felicidade alheia e das lembranças. E por aí fui. Enchi meu peito de felicidade observando crianças, familias a rir e amigos a se divertir. E é claro, aluguei um trenó para rasgar em alta velocidade as colinas, arrumei um belo poste para acertar minhas gordas bolinhas de neve, fiz um boneco e até provei, como uma amante da culinária, um bom naco para ver que gosto tinha! E assim foi meu dia: delicioso, quente e repleto de amigos que não conheci. Em meio a um frio de rachar, meu desejo foi apenas que na próxima vez não falte companhia.

Alguém se habilita?










segunda-feira, 23 de junho de 2008

no y basta!


Creio que “não” já não é suficiente.

Sigo envolta de turbulências que agitam meu novo país, e como ainda estou a maturar a casca que me define como estrangeira, sigo nesse mar bravio em um bote, um pequeno bote já quase insuficiente. O mergulho no oceano já se mostra inevitável.

Cartazes adornam mercados nos privando de um bom banquete no país que também é de fartura. Falta carne, falta óleo, falta farinha, falta...

Faltam decisões e o país se mostra perturbado e raivoso. Mas a raiva Argentina tem um tom europeu-latino, uma mistura rara que só se vê aqui. Enquanto em nosso país as ruas transbordariam de crianças semi-ignorantes de cabelos duros, afiados, queimando bandeiras e com bolsos cheios de sedentas pedras, ansiosas por um Bush qualquer. Aqui o povo canta em unison com panelas na madrugada.

Polidos e incisivos os gritos bem colocados perturbam, mas não o próprio povo, porque esse está sem exceção na rua lembrando à consciência que “quem não chora, não mama”. Ficar calado aqui não é o perfil e quando a noite se mostra densa saem para acalenta-la com a soma de gerações. E por ai marcham centenas e milhares, alimentando as manifestações que não param, na verdade, se multiplicam instigadas por um ácido apetite. Bem, acho que chegou a hora de darmos um novo uso para colheres, tampas, buzinas, panelas, gargantas e pupilas.

Dale, hermanos!

domingo, 22 de junho de 2008

primeira parada: mendoza!


Mendoza tem o ar de cidade modelo, pequena luz dos olhos... impecável.

Dezenas de hotéis e hostels aguardam sedentos o inicio da temporada alta, o inverno, que esta nos limiares de começar. A cidade então infla triunfante cheia da mais alta sociedade. Mendoza é a cidade dos vinhos argentinos mais famosos do mundo e merece o titulo, merece porque tem classe e porque o vinho é de babar.

Se estende “dorada” com centenas de árvores sobriamente colocadas e arrumadas em fila. Os parques são de encher os olhos e caminhamos com prazer horas a fio por caminhos intermináveis.

Acabo por concluir que Mendoza é daquelas cidades para se ter uma boa velhice ou uma deliciosa infância. Uma cidade para vir a dois, ou para casais apaixonados cheios de filhos lindos e que gostam de passear com o cachorro no parque.

Mendoza é a cidade da "Família Doriana"!

Talvez seja o vinho, ou apenas o ar frio e delicioso, mas esse lugar inspira saúde e desde que cheguei ando fotografando passarinhos, comendo no parque e andando, andando horas por ai... a suspirar.

Um brinde, chers!


poesia da madrugada...sem ordem, sem nada

00:06h
11 de junho...rumo a mendoza

Algum lugar na madrugada, palavras a escorrer pelo papel...


Relembro agora os motivos
os desejos
Relembro agora a vontade desenfreada de sair
de ir mundo afora
de ir mundo adentro.

Aqui estou seguindo passos
de muitos que já foram
Que seja fluido
que seja poético
que toque em fundo
a alma

Aqui começa
a minha viagem
rumo ao sem rumo
A viagem paciente
livre

Aqui começa
a minha viagem...

Um coração pulsa
sob um céu estrelado
em uma terra distante
perdida em algum meio tempo

Pequenas luzes passam lá fora
revelando a vastidão
não vazia
mas sim cheia de algo que não vejo

Luzes passam lá fora pontuando
Transparecem
algo que não dorme nessa fria madrugada...

Ou transparecem apenas
que o sono
só pode se render às horas
quando protegido da escuridão

Aqui começa...




Para viver o presente muitas vezes é necessário recorrer ao passado, para só assim lembrar que agora estás no futuro que tanto desejou...

Buenos Aires .Terminal Retiro.10jun08


Enfim a viagem começa e as minhas mãos tremem...

Chego cedo à rodoviária após um dia tranquilo e ensolarado, uma coleção de empanadas de catupiry me esperam na bolsa, estou feliz. Me aconchego em um desses bancos azuis desconfortáveis, tudo parece bom, descanso as costas que já gritam. É incrível como é difícil fazer uma mala, há dias roupas e afins passam por uma inspeção quase nazista, onde tudo tem um fim ou uso. Para mim a mala é um ponto preocupante, há tempos que tenho as costas frágeis devido a um tombo matinal em uma escadaria de madeira bem sólida, dos tempos que havia a preocupação em fazer coisas resistentes.

Uma das grande dificuldade em ser fotógrafo são os equipamentos, é bem pesado ter filhos eletrônicos, além do mais, é a primeira vez que faço uma viagem longa com meu laptop e já sinto as conseqüências de ter uma tela widescreen em minhas costas, mas te falar...santa invenção!!!

A rodoviária é um verdadeiro “quilombo”, por aqui as companhias de ônibus se apinham aos cachos em um não muito grande espaço, e conseqüentemente passo da minha felicidade incondicional para um vai e vem angustiante, na tentativa de descobrir meu ônibus que teoricamente estacionaria entre as plataformas 19 e 42, muito animador e excitante, poderia dizer. A questão é que após andar de um lado para o outro por pelo menos meia hora, já começo a sentir aquele comichão bem brasileiro, ou seja, bem pessimista e derrotista de que tem algo errado. Uma voz abafada fala em fracas caixas de som que se espalham pelo ambiente, forço os ouvidos para entender algo, sem sucesso. Tento ler ou ver os nomes dos ônibus no painel eletrônico e me sinto mais confusa.

Pontualmente as 19:45h, quando eu já estava a arrancar os cabelos em total desespero devido a: 1.ter perdido a viagem, 2.não compreender nada, 3.ter andando de um lado para o outro e não ter encontrado o maldito ônibus, 4...

Entendo enfim algo bem familiar vindo da caixa de som acima de minha cabeça: - Marilia Pellicciotta comparecer a boleteria 47! Mariliaaa Pellicciottaaaa comparecer a boleteria 47!!!

Rasgo o salão, a mala nunca pareceu tão leve, subo correndo as escadarias e os cabelos revoltos tapam a vista, tento enxergar ou entender algo em meio a suor e o pulsar do peito ofegante e apenas vejo: a boleteria 47, um senhor feio de óculos e a sua mão, ela abana algo...meu cartão do banco!!! Puta madre, che!

Pois é, mal comecei e já dou uma dessas, bem diria papai :

- Marilia, Mariliaaaa... essas coisas só acontecem com você, porra...não acrediiitooo!

E já começaria a espumar e ter um acesso nervoso. Bem, creio que ele está lendo isso agora e te digo, papi: tudo dá certo no fim das contas e confirmo, é tem coisas que só acontecem comigo!

Ah, e quanto ao ônibus, ele não veio mesmo, me botaram em um outro! Trinta minutos depois estava eu nos bancos azuis novamente, a tal felicidade incondicional se expressava pelas dentadas em uma bela empanada. Em vez de pernas, o que caminhavam eram os olhos, esse agora chegaria entre a plataforma 9 e 12...menos mal!


ON THE ROAD ARGENTINA . JUN08