segunda-feira, 30 de junho de 2008

A mochila


Cheguei a rodoviária após uma meditação raivosa e zen. Mais um quarteirão caminhando e iria me tornar uma santa após distribuir noventa por cento dos meus pertences aos fracos e oprimidos da cidade de Mendoza.

A mochila pesava a ponto de doer as costelas.

A cada metro que caminhava, mais intensa e visceral era a ladainha que rosnava para mim e todos a minha volta: “só preciso de duas calças, duas camisetas, duas calcinhas e um agasalho. Só preciso de duas calças...”.

Cheguei em frente ao ônibus quando não mais me suportava. Larguei o defunto no chão, respirei fundo e dei uma boa gorjeta na mão do rapaz que guardava as malas. Tudo doía e não há coisa que mais me irrite que dor desnecessária, uma dor aguda, como quando topamos o dedinho na cadeira da sala. Puta madre, che!

Minha viagem de 4hs foi relaxante, por alguns momentos até pensei que meu bom humor poderia voltar, mas a lembrança da mala definitivamente me perturbava. Agradeço por estar só, tem horas que posso ser um cão raivoso e mostro os dente com gosto!

Cheguei a San Juan e chutei minha mala para dentro do pátio com uma simpatia árida. Busquei um correio, uma caixa e uma fita. Abri a mala, e sem dó fui jogando tudo para fora. Voavam os creminhos, calças, meias, calcinhas, casacos e afins. Olhos atentos me fitavam com curiosidade. Cachorros sentaram a minha volta esperando ganhar algo. E assim a caixa foi enchendo...

Pegava a caixa, sentia o peso, leve demais.

Abria mais a mala e lá se iam cachecóis, luvas, blusas e o que mais fosse ao me ver, inútil. Fita adesiva, papel, caneta e um adeus não muito longo aos seis quilos de martírio.

Direção: Pueyrredon, 457, dep.47, piso 12. Buenos Aires. Destinatário: Frederico Tamagnini.

Definitivamente, não me importava o que ia gastar devido a isso, se iam receber ou que ficaria ao longo da viagem mais magrinha e feinha, uma mala leve, era isso que importava.


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