sábado, 19 de julho de 2008

segunda parada: San Juan


Domingo, onze horas. Só o sol constante acalenta minha caminhada faminta, procuro algo para comer ou para ver, nada encontro. San Juan é uma cidade de longas e recortadas ruas salpicadas de mil tons de amarelo. Cidade vazia, imóvel.

Cheguei no hostel próximo ao meio dia e tudo soava a silêncio na enorme casa fria e tranqüila, ausente de vida. A grande casa cheia de quartos e espaços vazios. Olhei a minha volta e, sem muita opção, aceitei ficar.

Estava só e assustei quando surgiram as risadas, rasgando bruscamente o silêncio. Subi as escadas, curiosa. Abro a porta, e lá estavam os dois rindo aos prantos por um motivo qualquer, ecoando um calor único e enchendo tudo de vida. Era assim quando chegavam e era assim quando estavam. Queridos e inesquecíveis amigos: Guilhermo e Werm.

Ah, eu confesso! Algo que definitivamente me conquista e arrebata o coração é o simples e desprendido riso. Rir, esse é o principio de se viver bem! E foi assim que, sem ter como fugir, fui fisgada por esses dois. Essa pequena cidade me ganhou, e por ali fiquei até enjoar do doce.

Posso dizer que San Juan é um lugar especial e o que guardo na memória não é nada frio ou solitário. As lembranças transbordam em crises de riso intermináveis em meio a muitas taças de vinho, longas e inteligentes conversas na cozinha e músicas argentinas bregas tocando na rádio. Foi ali que comecei a beber do calor diferente que todo "povo do norte” têm e acabei por mudar um pouco a minha opnião sobre os argentinos, agora ando meio que conquistada, e desejo a presença desse povo que me cerca.


Viajar sozinha e “morar” a cada hora em um novo hostel é estar passível ao próximo click de uma bem armada roleta-russa. Nunca sabemos o que esperar, e definitivamente a “primeira impressões não é a que fica”. A questão é: após um tempo de viagem precisamos e queremos nos sentir em “casa”, ou pelo menos ser parte de algo não tão nômade, é com esse espírito que são criados os “micro-cosmos” tão especiais e desejados que adornam esses freqüentados espaços.

São dezenas de distintos companheiros de dia-dia e presentes amigos, infinidade de costumes, dialetos e diferentes formas de intimidade. O que acontece é que aos poucos começamos a reconhecer o que nos rodeia, o país de origem passa a ser legível e se mostra na personalidade e claro, na acessibilidade.

Passamos então a ter preferências e nos alegramos muito quando encontramos certas nacionalidades. Para mim são israelenses, portugueses, italianos, australianos e argentinos que ganham o troféu, devido a serem em geral ótimas companhias, amáveis e divertidos. Franceses e americanos são simpáticos. Alemães, holandeses, ingleses podem ser um pouco grosseiros e demasiadamente frios. Ah, e isso não é novidade, certo?

A mim, logo perguntam se sou israelense, francesa ou argentina. Brasileira? Jamais! Nem mesmo em meu país sou reconhecida e isso é fato!

Mas minha “brasilidade” é algo que não tarda a se mostrar, basta eu começa a rir e todos dizem: “ah, é verdade”. Creio que mostramos nossa origem verde-amarela na constância do bom humor, na liberdade de olhar nos olhos e no toque. Se isso é uma coisa minha ou não, uma coisa é fato: sempre somos muito bem recebidos, desejados e convidados para tudo! E isso é bom, muito bom!

Dale, Brasil! Para alguma coisa definitivamente você serve!

Em San Juan passei por duas experiências que valem a pena contar, mas como disse acima, o que ganhei dessa cidade foi conforto, coisa que nos marca tanto quanto as intermináveis aventuras.

Aventura 3 : Difunta Corrêa.

De tempos em tempos me rendo ao “centro de informações turísticas”, é quase que um desafio sair monetariamente ileso, ou, com uma soma de coisas interessantes para fazer. Cheguei sedenta e sai com ainda mais sede. É, posso dizer que sou um “osso pra lá de duro de roer” e que a simpática garota perdeu um bom tempo comigo. No final das contas o pensamento foi : “Fudeu! Vou ter que dar nó em pingo d’água”!

A questão era que eu não tinha dinheiro, e tudo que havia para fazer não custava pouco, e sim muito! Ela tentou me dobrar, tentou com apetite, mas não conseguiu. Transporte comum? Nada. Companhia para dividir custos? Nenhuma.

Difunta Corrêa, como poderia descrever, é uma vila ou um pueblo? Enfim, não sei. É uma aglomeração que se formou em um lugar a principio sagrado, e aos olhos de quem determina o que é “um lugar turístico interessante”, esse definitivamente não era uma boa opção. Bem, era isso então. A moça me olhou decepcionada e o que poderia fazer? Tinha que apelar e pagar, com o pouco que tinha, para ver. Sou cabeça-dura e se essa era a única coisa que tinha acesso, lá ia eu. Ela no final colaborou, fez o favor de me mostrar o guichê.

Diz a lenda que a tal da Difunta Corrêa vivia em La Rioja e que era uma jovem muito bonita, casada e apaixonada por seu jovem marido. Tudo ia bem, até que um “homem mal e influente” acabou por se enamorar da linda moça e a queria a qualquer custo. Qual foi então a solução dentro do pensamento limitado masculino? Para ser correspondido teria que sumir com o amado da donzela.

Bingo!

Eis então que o coitado é enviado para morrer nos conflitos da guerra em San Juan. Desesperada, a Difunta pega então seu pequeno rebento, calça a chinela e como não havia coletivo, decide ir a pé em busca de seu querido. Depois de caminhar e caminhar por dias sem nem um isotônico, eis que seu corpo não suporta o terrível calor árido. Então, quando já estava quase lá acaba por morrer a pobre, de sede. O milagre se dá na sobrevivência do pequeno, que ao sorver o leite materno se mantém vivo até ser encontrado por moradores da região.

Em minha descrição faço uma terrível brincadeira, mas, o assunto é para lá de sério. O lugar virou um famoso “delivery de milagres”, e posso dizer que é emocionante! Imaginem que já cheguei e me deparei com uma senhora que subia uma longa escadaria de joelhos. Olhei, sorri e pensei: “oba, acho que hoje vai dar samba”! Alguém deveria prender os fotógrafos, confesso que adoramos algo sádico, doloroso e é claro, expressivo.

Tinha apenas duas horas para fotografar e lá fui eu entrando, furando a fila da santa e enfiando a lente em todos os lugares possíveis e imaginários. Definitivamente estava faminta e não tinha tempo para ser “light”, a santa que me perdoe!

Imaginem um lugar coalhado de agradecimentos, nunca vi tanta placa de carro na vida. Enquanto no Brasil o povo pede ajuda para enfermidades, aqui na Argentina o top10 vai de carro, vitória do “Boca”, casório e casa nova! Quem sou eu para julgar, certo? Se a saúde tivesse sobrando eu bem que pedia uma moto! Mas, te falar que a tal da Difunta Correa num deixa a desejar, porque os fiéis se amontoavam em filas maiores que de hospital público brasileiro.




Foi um deleite!

Aventura 4 : Las Tumanas e Astica

Quando lembro desse passeio penso: quem sou eu para expressar por palavras a grande emoção que foi essa viagem?! Levando em consideração decidi juntamente com meu editor que deveríamos postar algo mais “real”, para que vocês meus caros leitores, não fiquem limitados à imaginação. Entonces, eis que ponho logo abaixo um videozinho bem dos “safados” e mal filmados para vocês verem a expressão verdadeira em meus olhos!

Bom proveito!


Um comentário:

Unknown disse...

caraca prima!!! que robada!!! só tu mesmo pra manter o animo alto durante 13km!!! besos desde cataluña! Mau e Leca