sábado, 16 de agosto de 2008

relógio


Hoje quando caminhava de volta a Cafayate, após um trekking delicioso, fui atacada por uma euforia inacreditável, me pus a saltar e rir pela estrada poeirenta e infértil. Percebi que minha viagem esta a dois dias de terminar e tudo, tudo saiu mais que maravilhoso! Somo mais amigos que dedos em minhas mãos, e te falar que alguns desses vão viver em meu coração, e provavelmente, em minha vida por tempo indeterminado. Estou cheia e repleta a ponto de transbordar, e o olhar, esse anda ainda mais profundo.

O resultado dessa jornada me fez somar tantos pontos que no final das contas o que pensei é que poderia de verdade viver na estrada; desde que de tempos em tempos possa estar com família e amigos, viajaria por todos meus dias, bebendo dessa fonte inesgotável que é ter casas e portos em inimagináveis lugares.

Há pouco tempo conheci um senhor encantador, sentei ao seu lado em um almoço coletivo cedido pela população de San Isidro, pequeno pueblo cravado em meio a uma montanha, nos limiares do norte da Argentina. Nos miramos, e logo nos reconhecemos como em um espelho, e como em um laço, nos pusemos a conversar por horas a fio. Seu rosto já colecionava rugas de uma vida vivida e era como eu, um viciado nos caminhos. O desprendimento se mostrava na abertura à amizade, acompanhada de uma alegria ímpar que explodia a cada instante, em simpatia. Ernesto deve ter mais de 60 e por toda sua vida viajou, conhece o mundo e recém chegava da China.

Incitada pela curiosidade, e por uma dúvida que esta longe de ser um clichê, abri meus poros e ouvidos para a resposta a uma pergunta que a muitos é comum, mas para pessoas como ele, e talvez, como eu, é o que ponteiam os tão ansiados caminhos. Cortei o assunto que já se estendia há horas como uma navalha, olhei nos seus olhos e lancei: Você tem filhos e família? Ele me olhou fundo, e sem perder o sorriso disse que “não”. E pensa em ter? retruquei. E novamente me sorriu e lançou o derradeiro “não”.

Isso a vocês pode soar como uma brincadeira, ou, como uma pergunta um pouco precoce aos meus verdes anos. O fato é que eu estou muito longe de pensar em ter uma família, um marido e muito menos filhos, e isso definitivamente, me preocupa!

Será possível mesclar essas coisas todas em algo que seja verdadeiro? Será possível ser um viajante e ter raízes profundas?

Ta bom, riam de mim, eu sei que já começaram...

Diferente do homem, a mulher tem alguns desejos que são contados pelo tempo e tudo a volta martela essa ideia. Se eu tenho vontade de ter filhos? Pô, e como! E meu corpo já faz questão de mostrar que anda se preparando. Mas, convenhamos, mau sustento minha dispensa, e um filhote agora ia por meu mundo de cabeça para baixo!

Bem, enquanto esse dia não vem, vou vivendo. Caminhando livre em estradas bem longas e intermináveis. E se um dia o tempo apertar, a gente como sempre, há de encontrar um jeito! Só sei que quero do Ernesto somente a equivalência da experiência de vida, e é claro, a lista quilométrica de namorados!

Alguém pode me dar uma luz para acalmar meu jovem coração, ou, me dar um belo puxão de orelha?!

Mamãe já esta me cobrando de netinhos. Vê se pode?!