A primeira vista Mariano lembrou meu pai adolescente e ele ficaria puto ao saber disso, afinal, meu pai era bem bonito em sua juventude (e ainda é) e Mariano, bem, não posso dizer a mesma coisa. Eu na verdade não sei ao certo o que penso desse rapaz, só sei que ele me marcou de alguma forma, e me marcou de uma forma um pouco negativa. Tudo começou na minha tpm, é homens, eu tenho! Mas, minha tpm é algo que me torna um pouco mais sensível, fico propícia aos estímulos externos e se estou em um ambiente bom, tudo passa bem. Mas, infelizmente não foi o caso do pobre Mariano.
Ele tinha a cara longa e nariz arqueado, mais acima, um par de grandes e claros olhos azuis. Seu queixo se projetava para frente deixando ainda mais funda as maçãs do rosto, eram como covas, e lembravam o rosto de uma velha de oitenta anos. Não gostava de olhar quando ele sugava o mate, seu rosto afundava em um movimento grotesco, coisa que nem quero lembrar, pois como disse, estava sensível.
Desde muito jovem, coisa que ainda é um fato, eu sempre tive um ímã para seres estranhos, talvez por ser também uma pessoa ligeiramente diferente, e querer agregar todos, independente do que sejam, a minha volta. Eu só sei que seres esquisitos gostam de mim, e na maioria das vezes se apaixonam, e eu como sempre: percebo, olho ao redor e fujo! E esse foi o caso do pobre Mariano.
Tenho um certo problema com pessoas que falam demais, eu na verdade falo muito, mas cultivo diariamente horas de silêncio, porque afinal sou uma pisciana incorrigível. Quando assumo a “viajante solitária”, escolho a dedo minhas companhias e te falar que é raro ter bons companheiros, porque, é preciso equilíbrio, amizade, independência e em alguns bons momentos de solidão.
Eis que sem me questionar, o tal do Mariano decidiu que seria meu companheiro de viagem. No primeiro dia tudo se passou bem, recém chegava em Córdoba e estava aberta a novas amizades. Ele era da cidade e havia se formado em história, isso para mim era ótimo, iria conhecer a cidade com mais profundidade.
Em pouco tempo percebi que ele era aquele ser típico que passa mais tempo entre os livros do que vivendo, sabia me dizer tudo sobre todos os lugares que nunca esteve. Tudo tinha uma explicação, tudo tinha um significado e a cada frase que eu fazia ele retrucava: “mas, é claro!”.
Foi ai que começou a minha irritação. Claro, é o caraio!
Certo dia, perdi minha rica paciência que já estava curta devido a tpm e retruquei feroz : “Claro! Claaaro! Che, tudo é tão claro e límpido para você, tô precisando de umas aulas de vivência!”.
Coitado, eu posso ser muito antipática, e isso sim é claro.
O fato é que ele colou em mim, e não tem coisa que mais me deixe louca que seres dependentes e possessivos. Tentei de tudo para me libertar. Todo dia dava rasgadas antipáticas, saia mais cedo, deixava bem claro que estava de mal humor e queria fotografar sozinha. Mas nada, nada adiantava. Na verdade, o meu dia-dia era cercado de certas “coincidências”.Quando eu tinha fome, ele também tinha. Queria dormir e ele também queria. Aposto que se falasse que queria “cagar em público” ele também iria querer.
O fato é que eu fiquei puta, me senti invadida e incomodada!
Eis que queria ir conhecer a casa do “Che”, fui até o terminal me informar e comprar a passagem, voltei ao hostel e lá estava Mariano, sentado no bar em plenas duas da tarde, afogando a tristeza no copo de cerveja. Entrei e fui em sua direção, estava feliz e resolvi ser um pouco mais simpática. Começamos a conversar e eis que a idiota solta a frase “Ah, amanhã vou para Alta Gracia!”.
Bingo!
Seus olhos brilharam, essa era a chance de estar a sós comigo em uma pequena viagem! E como esperado, ele me diz animado “Mira, vos! Que coincidência! Amanhã também vou a Alta Gracia e ficarei por lá uma noite!”.
Ah, comecei a rir e ri com gosto! Olhei fundo em seus olhos e disse: "Jura?!"
Ele quer guerra, então, é o que terás!
Essa noite fui o ser mais simpático do mundo e até paguei a cerveja. Dei por três vezes uma surra na sinuca, coisa que no Brasil, ele teria que passar por baixo da mesa. Acordei com um humor dos deuses e paguei a passagem. Chegamos a Alta Gracia e o dia foi lindo, eu era uma companheira exemplar! Feliz e animada me despedi com um sorriso largo na cara, e até disse a ele que nos víamos no outro dia em Córdoba. Ele sorriu e se foi tranqüilo, estava realizado, é "claro" que eu sentia o mesmo por ele!
Voltei, arrumei a mala, fui ao terminal e comprei a minha alforria. Pela manhã, mal o dia amanheceu, me fui sem deixar rastro. Um dia depois lá estava em minha caixa de entrada um e-mail desesperado, escrito em meio a copos de cerveja:
“Onde eu estava, como poderia, em sã conciência ter feito algo tão terrível? Ele se morria por mim!”
Ah, deleite!
Levei o mouse até o botão "apagar mensagem", sorri e apertei com um prazer indescritível. Lá se ia Mariano da minha vida, deixando para trás somente a minha releitura sarcástica.
O que seria de meus textos sem um ser assim?! Um brinde a minha maldade, e é claro, a Mariano!
Ah, uma coisa eu aprendi nesses 27 anos: definitivamente não podemos querer tudo, e eu sou um ser para poucos. Tens que ser um louco para me bancar! E esse Mariano, assim como muitos, não chegou nem perto do tipo de loucura que eu costumo apreciar e me deixar levar!
Que venham os guerreiros! Ahu!





