terça-feira, 22 de julho de 2008

Mariano

A primeira vista Mariano lembrou meu pai adolescente e ele ficaria puto ao saber disso, afinal, meu pai era bem bonito em sua juventude (e ainda é) e Mariano, bem, não posso dizer a mesma coisa. Eu na verdade não sei ao certo o que penso desse rapaz, só sei que ele me marcou de alguma forma, e me marcou de uma forma um pouco negativa. Tudo começou na minha tpm, é homens, eu tenho! Mas, minha tpm é algo que me torna um pouco mais sensível, fico propícia aos estímulos externos e se estou em um ambiente bom, tudo passa bem. Mas, infelizmente não foi o caso do pobre Mariano.

Ele tinha a cara longa e nariz arqueado, mais acima, um par de grandes e claros olhos azuis. Seu queixo se projetava para frente deixando ainda mais funda as maçãs do rosto, eram como covas, e lembravam o rosto de uma velha de oitenta anos. Não gostava de olhar quando ele sugava o mate, seu rosto afundava em um movimento grotesco, coisa que nem quero lembrar, pois como disse, estava sensível.

Desde muito jovem, coisa que ainda é um fato, eu sempre tive um ímã para seres estranhos, talvez por ser também uma pessoa ligeiramente diferente, e querer agregar todos, independente do que sejam, a minha volta. Eu só sei que seres esquisitos gostam de mim, e na maioria das vezes se apaixonam, e eu como sempre: percebo, olho ao redor e fujo! E esse foi o caso do pobre Mariano.

Tenho um certo problema com pessoas que falam demais, eu na verdade falo muito, mas cultivo diariamente horas de silêncio, porque afinal sou uma pisciana incorrigível. Quando assumo a “viajante solitária”, escolho a dedo minhas companhias e te falar que é raro ter bons companheiros, porque, é preciso equilíbrio, amizade, independência e em alguns bons momentos de solidão.

Eis que sem me questionar, o tal do Mariano decidiu que seria meu companheiro de viagem. No primeiro dia tudo se passou bem, recém chegava em Córdoba e estava aberta a novas amizades. Ele era da cidade e havia se formado em história, isso para mim era ótimo, iria conhecer a cidade com mais profundidade.

Em pouco tempo percebi que ele era aquele ser típico que passa mais tempo entre os livros do que vivendo, sabia me dizer tudo sobre todos os lugares que nunca esteve. Tudo tinha uma explicação, tudo tinha um significado e a cada frase que eu fazia ele retrucava: “mas, é claro!”.

Foi ai que começou a minha irritação. Claro, é o caraio!

Certo dia, perdi minha rica paciência que já estava curta devido a tpm e retruquei feroz : “Claro! Claaaro! Che, tudo é tão claro e límpido para você, tô precisando de umas aulas de vivência!”.

Coitado, eu posso ser muito antipática, e isso sim é claro.

O fato é que ele colou em mim, e não tem coisa que mais me deixe louca que seres dependentes e possessivos. Tentei de tudo para me libertar. Todo dia dava rasgadas antipáticas, saia mais cedo, deixava bem claro que estava de mal humor e queria fotografar sozinha. Mas nada, nada adiantava. Na verdade, o meu dia-dia era cercado de certas “coincidências”.Quando eu tinha fome, ele também tinha. Queria dormir e ele também queria. Aposto que se falasse que queria “cagar em público” ele também iria querer.


O fato é que eu fiquei puta, me senti invadida e incomodada!

A gota d’água foi em Alta Gracia.

Eis que queria ir conhecer a casa do “Che”, fui até o terminal me informar e comprar a passagem, voltei ao hostel e lá estava Mariano, sentado no bar em plenas duas da tarde, afogando a tristeza no copo de cerveja. Entrei e fui em sua direção, estava feliz e resolvi ser um pouco mais simpática. Começamos a conversar e eis que a idiota solta a frase “Ah, amanhã vou para Alta Gracia!”.

Bingo!

Seus olhos brilharam, essa era a chance de estar a sós comigo em uma pequena viagem! E como esperado, ele me diz animado “Mira, vos! Que coincidência! Amanhã também vou a Alta Gracia e ficarei por lá uma noite!”.

Ah, comecei a rir e ri com gosto! Olhei fundo em seus olhos e disse: "Jura?!"

Ele quer guerra, então, é o que terás!

Essa noite fui o ser mais simpático do mundo e até paguei a cerveja. Dei por três vezes uma surra na sinuca, coisa que no Brasil, ele teria que passar por baixo da mesa. Acordei com um humor dos deuses e paguei a passagem. Chegamos a Alta Gracia e o dia foi lindo, eu era uma companheira exemplar! Feliz e animada me despedi com um sorriso largo na cara, e até disse a ele que nos víamos no outro dia em Córdoba. Ele sorriu e se foi tranqüilo, estava realizado, é "claro" que eu sentia o mesmo por ele!

Voltei, arrumei a mala, fui ao terminal e comprei a minha alforria. Pela manhã, mal o dia amanheceu, me fui sem deixar rastro. Um dia depois lá estava em minha caixa de entrada um e-mail desesperado, escrito em meio a copos de cerveja:

“Onde eu estava, como poderia, em sã conciência ter feito algo tão terrível? Ele se morria por mim!”

Ah, deleite!

Levei o mouse até o botão "apagar mensagem", sorri e apertei com um prazer indescritível. Lá se ia Mariano da minha vida, deixando para trás somente a minha releitura sarcástica.

O que seria de meus textos sem um ser assim?! Um brinde a minha maldade, e é claro, a Mariano!

Ah, uma coisa eu aprendi nesses 27 anos: definitivamente não podemos querer tudo, e eu sou um ser para poucos. Tens que ser um louco para me bancar! E esse Mariano, assim como muitos, não chegou nem perto do tipo de loucura que eu costumo apreciar e me deixar levar!

Que venham os guerreiros! Ahu!

sábado, 19 de julho de 2008

TIO DA SUKITA!!!!


AHHH!! Mas num é que encontrei a versão "Quechua" do "tio da sukita" ao vivo e a cores!!!!

E como um "tio" mais que original ele me olhou, sorriu, levantou o copo do liquido alaranjado e disse: a su salud!!!

cheeeers!

hahahahahahah

dale!

segunda parada: San Juan


Domingo, onze horas. Só o sol constante acalenta minha caminhada faminta, procuro algo para comer ou para ver, nada encontro. San Juan é uma cidade de longas e recortadas ruas salpicadas de mil tons de amarelo. Cidade vazia, imóvel.

Cheguei no hostel próximo ao meio dia e tudo soava a silêncio na enorme casa fria e tranqüila, ausente de vida. A grande casa cheia de quartos e espaços vazios. Olhei a minha volta e, sem muita opção, aceitei ficar.

Estava só e assustei quando surgiram as risadas, rasgando bruscamente o silêncio. Subi as escadas, curiosa. Abro a porta, e lá estavam os dois rindo aos prantos por um motivo qualquer, ecoando um calor único e enchendo tudo de vida. Era assim quando chegavam e era assim quando estavam. Queridos e inesquecíveis amigos: Guilhermo e Werm.

Ah, eu confesso! Algo que definitivamente me conquista e arrebata o coração é o simples e desprendido riso. Rir, esse é o principio de se viver bem! E foi assim que, sem ter como fugir, fui fisgada por esses dois. Essa pequena cidade me ganhou, e por ali fiquei até enjoar do doce.

Posso dizer que San Juan é um lugar especial e o que guardo na memória não é nada frio ou solitário. As lembranças transbordam em crises de riso intermináveis em meio a muitas taças de vinho, longas e inteligentes conversas na cozinha e músicas argentinas bregas tocando na rádio. Foi ali que comecei a beber do calor diferente que todo "povo do norte” têm e acabei por mudar um pouco a minha opnião sobre os argentinos, agora ando meio que conquistada, e desejo a presença desse povo que me cerca.


Viajar sozinha e “morar” a cada hora em um novo hostel é estar passível ao próximo click de uma bem armada roleta-russa. Nunca sabemos o que esperar, e definitivamente a “primeira impressões não é a que fica”. A questão é: após um tempo de viagem precisamos e queremos nos sentir em “casa”, ou pelo menos ser parte de algo não tão nômade, é com esse espírito que são criados os “micro-cosmos” tão especiais e desejados que adornam esses freqüentados espaços.

São dezenas de distintos companheiros de dia-dia e presentes amigos, infinidade de costumes, dialetos e diferentes formas de intimidade. O que acontece é que aos poucos começamos a reconhecer o que nos rodeia, o país de origem passa a ser legível e se mostra na personalidade e claro, na acessibilidade.

Passamos então a ter preferências e nos alegramos muito quando encontramos certas nacionalidades. Para mim são israelenses, portugueses, italianos, australianos e argentinos que ganham o troféu, devido a serem em geral ótimas companhias, amáveis e divertidos. Franceses e americanos são simpáticos. Alemães, holandeses, ingleses podem ser um pouco grosseiros e demasiadamente frios. Ah, e isso não é novidade, certo?

A mim, logo perguntam se sou israelense, francesa ou argentina. Brasileira? Jamais! Nem mesmo em meu país sou reconhecida e isso é fato!

Mas minha “brasilidade” é algo que não tarda a se mostrar, basta eu começa a rir e todos dizem: “ah, é verdade”. Creio que mostramos nossa origem verde-amarela na constância do bom humor, na liberdade de olhar nos olhos e no toque. Se isso é uma coisa minha ou não, uma coisa é fato: sempre somos muito bem recebidos, desejados e convidados para tudo! E isso é bom, muito bom!

Dale, Brasil! Para alguma coisa definitivamente você serve!

Em San Juan passei por duas experiências que valem a pena contar, mas como disse acima, o que ganhei dessa cidade foi conforto, coisa que nos marca tanto quanto as intermináveis aventuras.

Aventura 3 : Difunta Corrêa.

De tempos em tempos me rendo ao “centro de informações turísticas”, é quase que um desafio sair monetariamente ileso, ou, com uma soma de coisas interessantes para fazer. Cheguei sedenta e sai com ainda mais sede. É, posso dizer que sou um “osso pra lá de duro de roer” e que a simpática garota perdeu um bom tempo comigo. No final das contas o pensamento foi : “Fudeu! Vou ter que dar nó em pingo d’água”!

A questão era que eu não tinha dinheiro, e tudo que havia para fazer não custava pouco, e sim muito! Ela tentou me dobrar, tentou com apetite, mas não conseguiu. Transporte comum? Nada. Companhia para dividir custos? Nenhuma.

Difunta Corrêa, como poderia descrever, é uma vila ou um pueblo? Enfim, não sei. É uma aglomeração que se formou em um lugar a principio sagrado, e aos olhos de quem determina o que é “um lugar turístico interessante”, esse definitivamente não era uma boa opção. Bem, era isso então. A moça me olhou decepcionada e o que poderia fazer? Tinha que apelar e pagar, com o pouco que tinha, para ver. Sou cabeça-dura e se essa era a única coisa que tinha acesso, lá ia eu. Ela no final colaborou, fez o favor de me mostrar o guichê.

Diz a lenda que a tal da Difunta Corrêa vivia em La Rioja e que era uma jovem muito bonita, casada e apaixonada por seu jovem marido. Tudo ia bem, até que um “homem mal e influente” acabou por se enamorar da linda moça e a queria a qualquer custo. Qual foi então a solução dentro do pensamento limitado masculino? Para ser correspondido teria que sumir com o amado da donzela.

Bingo!

Eis então que o coitado é enviado para morrer nos conflitos da guerra em San Juan. Desesperada, a Difunta pega então seu pequeno rebento, calça a chinela e como não havia coletivo, decide ir a pé em busca de seu querido. Depois de caminhar e caminhar por dias sem nem um isotônico, eis que seu corpo não suporta o terrível calor árido. Então, quando já estava quase lá acaba por morrer a pobre, de sede. O milagre se dá na sobrevivência do pequeno, que ao sorver o leite materno se mantém vivo até ser encontrado por moradores da região.

Em minha descrição faço uma terrível brincadeira, mas, o assunto é para lá de sério. O lugar virou um famoso “delivery de milagres”, e posso dizer que é emocionante! Imaginem que já cheguei e me deparei com uma senhora que subia uma longa escadaria de joelhos. Olhei, sorri e pensei: “oba, acho que hoje vai dar samba”! Alguém deveria prender os fotógrafos, confesso que adoramos algo sádico, doloroso e é claro, expressivo.

Tinha apenas duas horas para fotografar e lá fui eu entrando, furando a fila da santa e enfiando a lente em todos os lugares possíveis e imaginários. Definitivamente estava faminta e não tinha tempo para ser “light”, a santa que me perdoe!

Imaginem um lugar coalhado de agradecimentos, nunca vi tanta placa de carro na vida. Enquanto no Brasil o povo pede ajuda para enfermidades, aqui na Argentina o top10 vai de carro, vitória do “Boca”, casório e casa nova! Quem sou eu para julgar, certo? Se a saúde tivesse sobrando eu bem que pedia uma moto! Mas, te falar que a tal da Difunta Correa num deixa a desejar, porque os fiéis se amontoavam em filas maiores que de hospital público brasileiro.




Foi um deleite!

Aventura 4 : Las Tumanas e Astica

Quando lembro desse passeio penso: quem sou eu para expressar por palavras a grande emoção que foi essa viagem?! Levando em consideração decidi juntamente com meu editor que deveríamos postar algo mais “real”, para que vocês meus caros leitores, não fiquem limitados à imaginação. Entonces, eis que ponho logo abaixo um videozinho bem dos “safados” e mal filmados para vocês verem a expressão verdadeira em meus olhos!

Bom proveito!


Chá de sumisso!


Eis que volto a todo vapor e mais atrasada do que nunca! A mente anda clara e tudo esta funcionando! Pois é, não morri e nem fui abduzida por algum espírito inca, muito menos me perdi no caminho!

O “pôbrema foi”, ou, o “melhor de tudo” é: estava curtindo umas montanhas bem longe de internet e cidade grande. E como sou um ser bem “maria vai com as outras”, me deixei levar para bem longe daqui!

Ah, e me perdi sim! Me perdi em meio a mais de 3000 mil metros de altitude em animadas e longas caminhadas com direito a muita música, risos, danças ao vento e mate, muito mate!

Bem, depois dessa a única coisa que vocês podem fazer é me perdoar, e pensar: ela estava bem, muito bem! Beleza, se isso não é suficiente então vou apelar para uma tática velha: como agradar os pais e se safar da bronca, depois de sair e voltar de manhã sem ter avisado? Leva o pãozinho que tá tudo resolvido!

Entonces, como vocês não são meus pais e eu não tenho nem um pãozinho virtual, eis que coloco um filminho bem gostoso, na verdade é um presente que resolvi compartilhar. Como fiz uma pessoa feliz, espero poder dar um pouquinho dessa felicidade para vocês também.

Abraço grande e estou de volta!